quarta-feira, 2 de abril de 2014

Azul é a cor mais quente

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ASSUNTO
Adolescência, sexualidade, relações afetivas e sociais.
SINOPSE
ATENÇÃO: CONTÉM CENAS DE SEXO EXPLÍCITO! Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma garota de 15 anos que descobre, na cor azul dos cabelos de Emma (Léa Seydoux), sua primeira paixão por outra mulher. Sem poder revelar a ninguém seus desejos, ela se entrega por completo a este amor secreto, enquanto trava uma guerra com sua família e com a moral vigente.
TRAILER
O OLHAR DA PSICOLOGIA
“A vida de Adèle” seria a tradução literal, mas ficou no Brasil com o título  AZUL É A COR MAIS QUENTE, possivelmente pelo destaque da cor em toda obra. O azul tinge desde os “cabelos da liberdade” do primeiro amor até roupas e cenários. Para além da polêmica cena de sexo, “explícito” ou “autêntico”, o drama nos convida a acompanhar a trajetória de Adèle e os desafios durante seu processo de amadurecimento. Aos 15 anos, a menina se encontra em fase de descobertas, grandes e pequenas, simples e confusas, individuais e sociais. Sem saber ao certo o que quer, o momento é de experimentar o mundo. Acompanhamos a adolescente em seu caminho para a escola, após ter perdido o ônibus. Na escola, aula de literatura tem  a discussão sobre um romance que fala de encontro, amor à primeira vista e primeiro amor. A cena registra as reações previsíveis dos alunos em fase de transformação. Adèle se mostra como qualquer adolescente, não há maquiagem ou se revela heroína com “exemplo” de bom comportamento. Ao contrário, seja na mesa ou no quarto, ela se mostra natural, comum, humanamente adolescente: lambendo faca, mastigando ou dormindo de boca aberta. Aliás, é importante notar como a protagonista aguça seus sentidos em cada experiência, nos convidando a “provar” com ela as novidades do mundo. Os close-ups de rostos e corpos nos aproximam bastante da intimidade da personagem. Podemos também sentir suas angústias, dúvidas e frustrações . Na escola, as amigas sinalizam sobre o “gatinho” que está atraído por ela.  É outro aspecto interessante da trama, pois descreve bem o lugar do “grupo” na vida do adolescente, a necessidade de pertencimento,“integração”, de ser aceito, de sentir-se parte do “grupo”. Ainda sem grande entusiasmo, ela “aceita” o acaso que a aproxima do menino. Apesar dos diferentes gostos, ela flerta com ele e até combina de voltar a vê-lo. No dia do reencontro, a menina vive um momento semelhante ao que fora descrito no romance discutido em aula, só que não acontece com o rapaz. Ainda à caminho, ela se depara com  o inesperado e atraente tom azul dos cabelos de Emma. A atração é instantânea e, tal qual no romance, ambas olham para trás,  atraídas por uma força inexplicável.
Ainda com a imagem  de Emma na memória, Adèle chega atrasada, como sempre, ao lugar marcado com o rapaz. Após o diálogo no lanche, trocam carícias e acontece o beijo no cinema. No entanto, durante a noite, no silêncio de seu quarto, seus sonhos eróticos são invadidos pelas carícias de Emma. As cenas são reais, revelam seu corpo excitado, entre sonho e realidade, imaginação e ação. Ela desperta surpresa ao se dar conta de que sua masturbação foi inspirada na atraente garota dos cabelos azuis. O foco nas expressões, faciais ou corporais de Adèle, nos permite acompanhá-la de perto em seus movimentos e momentos de surpresa, dúvida, decepção, negação ou confusão. É possível sentir sua angústia diante do misto de emoções que a invadem. Pode ter sido uma tentativa de acalmar o furacão de sensações novas e confusas, ou  quem sabe, para corresponder às expectativas de seu grupo, o fato da menina se render aos encantos do “gato”. A cena de sexo entre eles pouco revela de amor ou paixão. O sexo “casual” não choca, ao contrário, muitos se identificarão com a resposta educada, quase “entusiasmada” da menina, diante da clássica pergunta “Foi bom?”. No entanto, a expressão de seu rosto transmite um vazio bem distante do discurso. Após transar, ela desabafa com o amigo. “Sinto como se eu estivesse fingindo. Fingindo tudo.”O momento é de questionamento, sensações confusas, entre o vazio e sentidos não compreendidos. No momento da descoberta sexual não há guia, pai ou amigo que possa de fato orientar a escolha e/ou descoberta por vir. O momento é pessoal, singular, solitário e único. Na impossibilidade de seguir o padrão, ela se descobre atraída pelo mesmo sexo. Como entender o imprevisível? Como enfrentar diferentes perspectivas? Entre erros e acertos, a protagonista experimenta o mundo com todos seus sentidos, buscando sua identificação através do outro. Daí em diante, acompanhamos a construção de uma história de amor, que inicia com uma paixão desmedida, e,  se desenvolve com erros, acertos, união e separação.
O relacionamento de Adèle e Emma é retratado de forma muito delicada e natural. Enquanto a primeira é carente, confusa, infantil, curiosa, ingênua e impulsiva, a outra é decidida, independente, definida, livre e sensivelmente expressiva. O encontro das duas dá início a uma história de amor, que se transforma ao longo de sua existência, como tantos outros relacionamentos. A paixão, o desejo, a dor e o carinho da relação são retratados com tamanha veracidade, que muitos poderão se identificar. O espectador acompanha a mudança de ciclos da vida de Adèle com certa intimidade, o que inclui seu processo de autoaceitação e a autodescoberta, que vão se revelando dentro da possibilidade de cada momento. A suavidade com que o diferente nos é apresentado provoca diversas sensações. Retratar o sexo entre mulheres dentro de um contexto de amor é pretender desmistificar o que parece estranho aos heterossexuais. A cena polêmica de sexo homoafetivo, que tem duração de 6 minutos, pode despertar repulsa, medo, risos desconcertados, choque, incômodo, ou sensações de vergonha diante do próprio excitamento. Mas, definitivamente, não é uma cena pornográfica! A cumplicidade dos corpos é apresentada com afetividade, delicadeza, voracidade e, claro, amor. A aproximação entre o espectador e o processo de transformação de Adèle pode promover diferentes sensações e reflexões. O filme mostra a força do amor em todas as suas vertentes, do amor idealizado ao amor real, com todos os conflitos, dores e falhas, independente do gênero. As angústias e expectativas de Adèle são humanamente reconhecíveis. A postura juvenil de incertezas, desejos, impulsos, dificuldades são costurados no desdobrar da trama. O paradoxo adolescente, de não saber o que quer e ao mesmo tempo querer tudo, permeia a história, dando tons reais ao enredo. O medo ou enfrentamento de preconceitos, pessoais ou sociais, estão registrados na trama. Muitos traços dos nossos relacionamentos de cada dia podem ser reconhecidos, independente do gênero e da sexualidade. No final das contas, o amor é simplesmente amor. Adèle vive uma história de amor inesquecível, que não é suficiente para defini-la ou restringi-la. Atravessando  conceitos e preconceitos,  públicos e privados da sexualidade humana, a trama privilegia o amor, simples assim. O amor é paradoxo, é vida, é processo, é simples, é complicado, é indefinido, está aberto ao novo, em constante construção e transformação. Assim, o filme, se mostra extremamente provocante e imperdível.



2 comentários:

  1. Acho que essa foi a melhor análise que eu li desse filme. Impressionate! Captou tudo...

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