quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A vida secreta de Walter Mitty

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ASSUNTO
Relações sociais, afetivas e familiares, auto conhecimento, autoestima, fobia social, relações virtuais, espaço e tempo (aqui e agora).
SINOPSE
Walter Mitty (Ben Stiller) é o responsável pelo departamento de arquivo e revelação de fotografias da tradicional revista Life. Ele é um homem tímido, levando uma vida simples, perdido em seus sonhos. Ao receber um pacote com negativos do importante fotógrafo Sean O'Connell (Sean Penn), ele percebe que está faltando uma foto. O problema é que trata-se justamente da foto escolhida para ser a capa da última edição da revista. É quando, Walter, com o apoio de Cheryl (Kristen Wiig) é obrigado a embarcar em uma verdadeira aventura.
TRAILER
O OLHAR DA PSICOLOGIA
Uma cliente adolescente já tinha comentado sobre o desejo de assistir ao filme, consegui uma versão dublada e guardei. Recentemente, uma colega renomada o indicou também, tive que verificar. A princípio, o filme aparenta ser uma daquelas comédias “sem noção”, apenas mais um besteirol americano. Entretanto, os mais sensíveis poderão perceber a riqueza da trama. Diversos olhares se tornam possíveis diante da experiência. Para alguns, o filme pode ser sobre o Universo particular de alguém com dificuldade em se relacionar, que tem uma rotina metódica e que encontra na fantasia algum tipo de compensação. Para outros, o foco pode estar na necessidade de qualquer ser humano de dar asas à própria imaginação, de criar situações, de viver aventuras, de se permitir, ou seja, de agir no lugar de pensar. Pode também ser apontado como uma comédia dramática a respeito de crises existenciais dos novos tempos, que englobam o tempo ou a falta dele, o espaço real ou virtual, as relações familiares e sociais. Fato é que o filme parte de um momento de crise, sim, para acompanhar o processo de autoconhecimento de nosso anti-herói. A vida secreta dele é também a de cada um de nós, quando escolhemos nos refugiar em pensamentos, no lugar de sentir a vida no momento que ela acontece.
Mas o que poderia ser melhor que uma crise para possibilitar novas oportunidades? É assim que ocorre na trama, o que faz da crise da revista ser também a crise existencial de Walter, uma crise pós-moderna e também universal. O mundo virtual anda atravessando tantos cotidianos quanto às misturas entre real e imaginário retratadas no filme. Walter trabalha numa revista chamada Life (vida), cujo lema é Ver coisas a milhares de milhas de distância, coisas escondidas atrás de muros e dentro de quartos, coisas perigosas por vir. Encarregado pelo departamento de arquivo e revelação das imagens, o sujeito pacato e metódico encontra nas fotos inspiração para suas fantasias mais ousadas, assumindo atitudes heroicas e surreais. Em sua imaginação ele enfrenta seus conflitos sem medo, realizando proezas de forma quase infantil. Ao completar 42 anos, Mitty ganha um boneco de sua irmã (um herói de sua infância), momento em que se encontra em crise existencial. Há uma falha no trabalho de uma vida, por mais que tenha se dedicado, o negativo mais importante desapareceu. Seu emprego é ameaçado, há mudanças em sua casa, há desordem em sua vida. Sua rotina, sempre tão previsível, está em colapso. Seus delírios ou apagões de consciência não mais dão conta de manter o status quo, seu universo está ameaçado. Logo, ficamos sabendo que desde 0s 17 anos ele assume a responsabilidade por sua família, o que pode ter causado o aprisionamento de sua infância. Hoje, sua mente dá espaço para as brincadeiras e criatividades que não pode mais viver. Assim, ele segue sua rotina em uma prática acomodada, e, sua imaginação assume funções ativas, de tudo que na prática não é possível. O seu mundo sai do lugar comum, o passado volta à tona durante a mudança de casa, há ameaça de seu mundo organizado e a iminência da perda do emprego. Seu universo cinza, morno, entra em confronto com as cores de seus sonhos. Ao se deparar com a agenda de viagens de seu pai, ele enfrenta seu vazio existencial. Deste modo, nosso anti-herói representa a angústia de muitos, que vivem em situação semelhante. Em pensamento, muitos indivíduos encontram nas fantasias (pensamentos críticos ou fabulosos) um meio de fugir de situações que lhe parecem ameaçadoras. Há na trama a representação de pessoas que escolhem sonhar tanto que perdem a oportunidade de realizar, além de uma crítica sutil ao estilo relacional contemporâneo, que em muitos casos está substituindo o contato autêntico por relações virtuais. E a trama segue de forma magistral, a busca de Walter por si mesmo, enfrentando seus fantasmas, suas fantasias, mesclando imaginação e ação. Walter potencializa suas fantasias, criando novas possibilidades. E, para não contar o final da trama, destaco apenas o trecho de sua conversa com o famoso fotógrafo da revista. Eles estão diante de uma visão esplendorosa, digna de ser a “foto sonhada”, o fotógrafo está paralisado. Então, Walter, pergunta: “Quando vai tirar a foto?” O profissional responde: “Às vezes não tiro. Se eu gosto de um momento, quer dizer, eu, pessoalmente, não gosto de ser atrapalhado pela câmera. Eu só quero ficar nele, ficar nele. É como estar bem aqui... Ah, já se foi, já se foi...” Linda participação na trama, que destaca enfaticamente a necessidade de preenchermos o aqui e agora, fazendo parte integrante das situações que nos são caras. Momentos se vão, partem sem dizer Adeus, se você não estiver nele, perdeu, já foi. O desfecho da trama, somente assistindo você saberá. A vida secreta de Walter Mitty fala sobre correr riscos, potencializar sonhos e fantasias, fala de ganhar e perder, cair e levantar, fala sobre viver a vida! Tudo isso com belíssimas fotografias e uma trilha sonora espetacular. Posso garantir que outros detalhes muito inspiradores poderão ser encontrados no filme. Vale a pena conferir, divirta-se!


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