terça-feira, 30 de setembro de 2014

Numb

clip_image001 ASSUNTO
Relações familiares, sociais e afetivas. Erros e acertos nas relações terapêuticas, transtorno de despersonalização.
SINOPSE
Um roteirista sofre de um  transtorno, que o faz perder contato com sua personalidade e ter sensações de irrealidade e estranheza. Suas tentativas de tratamento e cura são retratadas na fita.  Quando se apaixona por uma mulher, o esforço dele aumenta, passando por todo tipo de terapia existente para conseguir conquistá-la.
TRAILER
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
Numb é um filme de 2007, que inicia com Hudson se percebendo de forma estranha. Havia algo errado em sua percepção, mas ainda assim, era possível manter as aparências. Ninguém percebia o que estava acontecendo com ele até o dia ao fumar maconha ele perde o controle. Diante do surto, ele procura ajuda. O médico descarta as doenças físicas e o encaminha para o psiquiatra. De acordo com a psiquiatria, o filme retrata o transtorno de despersonalização e desrealização, que de forma resumida relaciona-se a um estranhamento em relação ao próprio corpo e ao mundo externo e que ocorre puramente como patologia, ou como fenômenos em diversos transtornos psiquiátricos como transtornos dissociativo e no famoso transtorno do pânico. Hudson (Matthew Perry) define assim sua desordem metal: O transtorno de despersonalização é o desligamento de sensações exteriores. Consiste na persistência ou recorrente experiência de se sentir desligado, como se alguém fosse um observador de seus próprios processos mentais ou do corpo. Além de oferecer um material informativo sobre o transtorno, o filme apresenta diferentes intervenções, psicológicas e psiquiátricas, que revelam algumas situações terapêuticas pouco recomendadas. O material a seguir contém Spoiler (revelações do enredo), portanto é recomendado ser lido após o filme ter sido assistido.
O primeiro psiquiatra/psicoterapeuta o acompanha por longo tempo, sinalizando a necessidade de insistir na vida social, o que ele tenta sem sucesso. O terapeuta ocupa um lugar distante do paciente, se mostrando pouco sociável em um encontro fora do consultório. Como se não fosse suficiente, o mesmo psicoterapeuta dorme durante a sessão. Nesse aspecto, Hudson revela sua parcela de lucidez, pois além de sinalizar seu descontentamento com o psicoterapeuta, passa a buscar alternativas: atividades físicas e o retorno ao ambiente familiar são tentativas frustradas. Apresentando ansiedade, pânico, pensamento obsessivo e distorção na sua percepção - o mundo, as pessoas e os objetos são experimentados como estranho ou distorcidos (desrealização), ele apresenta um quadro depressivo. Em um dia o inesperado acontece, ele se apaixona. Ainda ansioso, e, com sintomas graves, ele encontra nessa relação um espaço para sua existência, um forte componente motivacional para manter sua conexão com a realidade. A parte bonita desse encontro é a autenticidade, que permite a ambos iniciarem a relação a partir dos próprios “defeitos” e necessidades reais. Ela, por sua vez, é franca quanto aos seus limites, o que favorece o enfrentamento dos próprios sintomas de Hudson. O segundo psiquiatra não é terapeuta, propõe a troca de medicação, do antidepressivo para um antipsicótico, posteriormente para outros medicamentos. Depois de tentativas infrutíferas, ele se percebe incapaz de continuar na relação, o medo vence e ele termina o relacionamento. A tentativa seguinte foi uma psicoterapeuta cognitiva comportamental, que diferente do anterior, trabalhou seu reconhecimento como pessoa também em outros ambientes. Infelizmente, teremos outro exemplo de trabalho terapêutico errado, a psicoterapeuta rompe o limite de trabalho e se envolve com o paciente. Posteriormente, ela sinaliza a possibilidade de encaminhá-lo a outro profissional, mas não o faz. No lugar disso, se apaixona, apresenta sintomas disfuncionais e o assusta. Seu próximo passo é participar de um estudo, que no final confirma seu diagnóstico sem nenhuma nova perspectiva de tratamento. Depois de tentar fumar maconha outra vez, ele tenta reatar com Sara, pedindo que ela a salve. Sua negação é seguida da morte do pai, que o faz finalmente enfrentar sua mãe, seu irmão e novas tentativas de lidar com a realidade. Aí, em algum momento, ele simplesmente aceita que seu funcionamento é desse jeito, que não adianta lutar contra si mesmo. A partir de então, ele enfrenta a realidade, com seus limites e possibilidades, se dando a oportunidade de buscar uma vida melhor. Aceitando a si mesmo, Hudson descobre que não precisa de salvação vinda de outros. Ao contrário, ele descobre a existência da necessidade dos outros e desloca o foco de si e de seus problemas. A percepção dos outros, suas necessidades e potencialidades, abrem novas formas de funcionamento no mundo. Então, ele encontra suporte para buscar o que deseja. Sara deixa de ser responsável por sua salvação ou cura, mas o amor deles pode tornar a vida de ambos melhor. O desfecho é o esperado para uma comédia romântica, com um toque delicado, mostrando que o amor é “apesar de”, não “por que”. Sensacional!







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