quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Pão e Tulipas

clip_image002 ASSUNTO
Relações afetivas, familiares e sociais, auto-descoberta
SINOPSE
2000 - A dona de casa Rosalba (Licia Maglietta) está viajando em uma excursão de ônibus com sua família. Ao parar em um restaurante à beira da estrada, ela é esquecida pelo marido e pelos filhos. Uma situação propícia para que possa fazer o que sempre quis: conhecer Veneza. Pede carona, deixando apenas um evasivo recado na secretária eletrônica do marido: "Férias". Mas incidentes transformam a rápida escapada em algo mais duradouro. Enquanto isso, o marido contrata um encanador fanático por histórias de detetive para ir atrás da mulher. Mas Rosalba já organizou sua nova vida: arrumou um emprego, divide um apartamento com um garçom finlandês, ganhou a amizade da vizinha, voltou a tocar acordeão. Quando o encanador-detetive a encontra, ele também percebe que a vida pode ser muito mais divertida do que parece.
 
O OLHAR DA PSICOLOGIA
Também recomendado por Cláudia Távora, em seu artigo “Três ensaios sobre o self: Intencionalidade, crise e mudança”, que foi publicado no livro “Encontros”, IGSP, o filme revela muito sobre nossas relações com e no mundo. Promovendo diversas reflexões, a trama nos convida a pensar sobre o nosso funcionamento no mundo, nossas possíveis acomodações, nossos sonhos esquecidos, nossa necessidade ambígua de “voar em segurança”. Estamos falando daquela necessidade de mudança que nos causa medo, ela é necessária e também assustadora. Auto-descoberta é o ponto forte do filme. Gosto do pensamento que des-cobre, no sentido de revelar, tirar aquilo que cobre. Pois é assim com Rosalba, que em momento de crise, aproveita a oportunidade para se re-conhecer, se re-conectar a si mesma, se re-descobrir. E, como esse é um processo que se faz nos contatos, foi preciso também existir novos e nutritivos contatos capazes de promover seu crescimento. Explico, Rosalba é esquecida por sua família, num momento bastante simbólico. Para alguém que vive em função do seu contexto (casamento/ família), é exatamente sua preocupação - em recuperar a aliança que havia caído no vaso sanitário - que fez com que se perdesse o ônibus. Entretanto, nem a organização da excursão nem sua família percebem sua falta. Como seria sentir que sua ausência não foi notada? Como é perceber sua “não existência” para o outro a quem dedicamos nossa vida? Para muitos, poderia ser um momento de tristeza sem fim, perceber que a própria família não sente sua falta. Ainda mais, quando a pessoa se anula em favor dessa família. Fora do contexto familiar, onde sua presença se faz de outra forma, ela deixa de ser notada, percebida, considerada. Momento difícil para qualquer pessoa em qualquer momento.
A crise, que poderia ser devastadora, se transforma em oportunidade. O que no primeiro momento parece fuga é na verdade encontro. O encontro com as próprias necessidades é também o encontro com suas aspirações e sonhos, com suas próprias possibilidades. Encontro que acontece em realidade palpável, não é encantamento, não é perfeição, não é conto de fadas, é a realidade que se revela nas pequenas coisas, onde “menos é mais”. Se perceber é criar sintonia com o que estava esquecido, as próprias aspirações, seu movimento autêntico. Assim, o que era estranho se torna novidade, na qual ela vai se ajustando de forma criativa e autêntica de ser. As descobertas são feitas a cada encontro com seu desabrochar. Dessa forma, ela também abre possibilidade para os outros se revelarem ou sintonizarem com seu movimento. Não há príncipes encantados nem qualquer enquadramento nos modelos de sucessos e conquistas propagados pela mídia. Ao contrário, há pessoas verdadeiras, as que se isolam em suas dores, as desiludidas com suas perspectivas e as que continuam buscando. Há, sim, nova sintonia para descobrir que a felicidade pode estar nas pequenas coisas. Há um deslocamento do ideal de felicidade inalcançável para algo real, possível, concreto. A possibilidade de ser (existir) nas relações, em vez de ser para as relações ou para alguém, é também potencializar e ampliar a própria existência. Assim, se respeitando, se permitindo, Rosalba se revela através de novas relações. E, o que mais gostei, foi saber que a felicidade dela não está no “outro” - naquele “príncipe encantado”, nem nas “coisas”. Não, o outro é real, é também imperfeito, ele representa possibilidades. Nesse novo contexto novo e real, com oscilações entre perdas e ganhos, há possibilidade de ser com, de realizar trocas nutritivas. Possibilidades inauguradas pela nova abertura, que a possibilita ultrapassar os limites do que é seguro, conhecido, para correr riscos. Eu disse representa, porque não se restringe ao outro, novas relações são “o outro”, que a permitem ser ela mesma. O “novo amor” é também aquele que possibilita uma nova forma dela se relacionar com o mundo, um novo reconhecimento de si mesma. Ele também não se permitia mais, estava restrito ao seu mundo, às suas dores. A autenticidade dela também abre caminho para os outros. Para ela, ele é o personagem que inaugura sua forma de estar com alguém, de ser nas relações, não se restringindo a velha fórmula de FINAIS FELIZES. Para ele, ela é a nova brisa que revela sua capacidade de respirar, de sentir a vida. O contexto é inovador, repleto de pessoas simples e pequenas acontecimentos que permitem colorir o cotidiano. A trama, em alguns momentos, pode se tornar água com açúcar, mas não perde a oportunidade de suscitar boas reflexões. Essa é apenas uma delas, descubra a sua!







Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua opinião é muito importante!