segunda-feira, 1 de maio de 2017

Dear Zindagi

ASSUNTO

Relações familiares, afetivas, sociais e terapêutica. Processo terapêutico, conflitos existenciais e familiares, perfeccionismo, compras compulsivas, insônia, ansiedade.

SINOPSE

Filme indiano de 2016, Dear Zindagi está disponível legendado no NETFLIX. Kaira é uma cinegrafista em busca de uma vida perfeita. Após alguns entraves relacionais, ela não consegue mais dormir. Por acaso, escuta a palestra de um psicoterapeuta, algumas frases dele fazem sentido. Ela, então, procura Jug, um pensador não-convencional e psicólogo, quem irá ajude-la a ganhar uma nova perspectiva sobre a vida. Aos poucos, ela vai descobrindo que  felicidade é encontrar conforto nas imperfeições da vida.

TRAILER


O OLHAR DA PSICOLOGIA


A título de curiosidade, a palavra “Zindagi” quer dizer “vida”, o que sugere a tradução “Querida vida”. Assim, fica mais fácil falar sobre a trama, que versa sobre a vida de Kaira, alguém que em busca da perfeição, está, de fato, de mal com a vida. Seus relacionamentos são conturbados, logo o público torce pelo esperado “final feliz” com o amor, seja qual for. Opa! Seja qual for? Não! A esperança é que seja algum herói para salvar a mocinha das dificuldades da vida, só que não! O filme acompanha encontros e desencontros, perdas e ganhos, oportunidades e dificuldade de uma pessoa normal: Kaira. Muitos poderão se perguntar para que serve um terapeuta se a pessoa é normal? Pois é, terapia é um espaço pessoal necessário em diferentes situações, principalmente quando não estamos conseguindo lidar com alguma questão, chegando ao ponto do organismo manifestar “sintomas”. Como já dito em outros posts, os “sintomas” são vistos - pela Abordagem Gestáltica (linha ou abordagem psicológica) – como a melhor forma que o organismo encontra para manter o equilíbrio. Ou seja, o organismo oferece a oportunidade de percebermos que algo interrompe o fluxo natural de nossa autorrealização. O sintoma nos mantém autorregulado, sinalizando que algo em nosso caminho não vai bem, algo está interrompendo o fluxo saudável. Benditos sintomas que servem como alerta! Pode ser o momento de se buscar ajuda para lidar com questões difíceis, muitas vezes insuportáveis. Então, voltando ao filme, após algumas perdas, obstáculos e desvios de caminho, Kaira se depara, inesperadamente, com a palestra do psicólogo Jug, alguém que tem uma forma diferente de se expressar, o que a agrada de pronto. A insônia, a compulsão por compras, a dificuldade de lidar com suas relações afetivas dão sinais de que ela precisa buscar ajuda, o psicoterapeuta pode ser uma boa opção.
Começa então, seu processo terapêutico. Acompanhamos o desabrochar da protagonista, que aos poucos encontra em si a força que buscava para lidar com seus conflitos. Quem ainda não fez terapia, vale conferir, percebendo que o lugar, a força, as escolhas continuam sendo do cliente. O profissional, apenas oferece um suporte para o cliente se perceber melhor, buscando desatar seus nós, e, para que seja possível criar laços relacionais saudáveis. Jug utiliza pequenas intervenções, como imitações, metáforas, frases, sem “fazer” por ela. Todas as intervenções promovem reflexões que mostram a própria capacidade e força da cliente. Pouco convencional, o Terapeuta surpreende a cada sessão, que nem sempre é realizada no consultório. Ainda assim, mantém regras e limites, bem esclarecidos durante o processo.  É lindo assistir ao terapeuta ficar presente por inteiro na relação, inclusive usando exemplos da própria vida para auxiliá-la na compreensão de si mesma.  Conforme anunciado por ele, chegará a hora dela assumir as rédeas da própria vida. Aos poucos, ele vai mostrando como ela faz para se sabotar, ele alerta: “Não deixe o passado subornar o seu presente... para arruinar um futuro lindo". Ele mostra que ser fiel as suas sensações não é pecado: “Se você não chorar livremente, como vai rir livremente?”. E no final da terapia, ela tem que enfrentar outra perda, pois se habituou assim. Ele não permite que ela o coloque no lugar de “bengala”, ele oferece suporte apenas enquanto ela não tinha seu autossuporte fortalecido. Dentre as frustrações promovidas pelo terapeuta, fosse através de limites, de permitir que ela encontrasse suas respostas e soluções, a última revela a Kaira seu autossuporte, condição necessária para a alta. O psicoterapeuta, na última sessão, valida seus sentimentos, mostra que é normal que o cliente tenha sensações semelhantes, independente de sua singularidade. Entretanto, deixa claro, que o contrato é terapêutico, tem começo, meio e fim. O tão sonhado “final feliz” é frustrado, não atende as expectativas culturais de “casar e ser feliz”, ao contrário, está no movimento de descobrir (descortinar) a si mesma. Não temos dúvidas que as relações de Kaira serão mais saudáveis, até podendo resultar em casamento, mas a mensagem que fica é do seu namoro com a vida. Ela poderá enfrentar frustrações e conquistas, sem por isso deixar de ser ela mesma. O caminho de amar a si mesma começou, o processo terapêutico termina. Lindo filme, repleto de tudo que é óbvio, mas que nem sempre pode assim parecer. Vale conferir! 

6 comentários:

  1. Acabo de assistir o filme e adorei! Concordo com tudo que o texto disse! Ainda bem que Koko não ficou com o psicólogo, iria estragar a mensagem do filme. Amei o final. Será um filme que guardarei com muito carinho.

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    1. Bacana, né? O filme é um recorte honesto de um processo terapêutico, prioriza o vínculo, é informal, mas não perde de vista seu propósito, que é o cliente. Volte sempre, continue contribuindo com sua percepção ou sugestão,enriquecendo nossas reflexões. Obrigada!

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  2. Um dos filmes que guardarei para a vida!

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    1. Sim, muito bom, mesmo. Obrigada por sua participação, volte sempre!

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