sábado, 28 de janeiro de 2012

O artista

clip_image002ASSUNTO
Casal e família, relações familiares, afetivas e sociais, depressão, suporte, transformação.
Acabo de assistir a mais um filme indicado ao Oscar, e, ainda que seja um romance belíssimo que faz homenagem a era de ouro do cinema mudo, a trama me fez refletir sobre sensações e sentimentos análogos ao drama vivido pelo artista. Assim, compartilho com vocês minhas reflexões.
Como é sentir-se ultrapassado, inadequado, sem lugar no mundo? Como é perceber-se mudo diante de um mundo novo, onde as palavras já não te dizem nada? Como é sentir-se sem voz diante de uma avalanche de novas formas de funcionar no mundo que lhe são incompreensíveis? Como é olhar em volta e ver um mundo no qual se sente simplesmente invisível? O velho abre caminho para uma nova geração, repleta de novos conceitos, novas linguagens, novas músicas, novas formas de funcionamento. O sucesso é ser diferente do que um dia foi, é inovar com caras novas... Mais do que uma homenagem ao cinema mudo, “O artista” fala da sensação de decadência frente às vozes e corpos que trazem novidades. O orgulho impede o artista de se atualizar, a mudança não é aceita, a rigidez impera e o homem de sucesso se recusa a adaptar-se. O orgulho se torna seu inimigo, pois nem quando consegue reconhecer o encanto desse novo mundo, Vanentin é capaz de se render a modernidade. Consegue até achar graça, se deixar envolver, mas em seguida escolhe olhar para as impossibilidades, para o fracasso e a inaptidão. O belo denuncia sua oposição, o impedindo de reconhecer a beleza de sua existência, ao contrário, o faz sentir-se nulo, decadente, vazio. A depressão se instaura, a solução para tanta dor e inadequação só pode ser desistir. O “velho”, ao se deixar seduzir pelo “novo”, belo e alegre, sente-se feio, triste e muito, muito velho. Suas certezas são enfraquecidas frente à realidade, o que era reconhecido como único sucesso, agora se deteriora, desaparece frente aos avanços tecnológicos e as novas formas de projeção. Agora o artista desvaloriza sua história e experiência de vida, desqualifica a própria identidade, não se permite mais continuar. Mas o amor, ah, o amor cuida. Representado por seu cachorro e pela atriz, que reconhece seu sucesso como resultado de sua história, o amor cura. É esse amor que busca unir o melhor de ontem ao sucesso de hoje, transformando o “casamento” em algo mais inédito, dança e sapateado faz o casal caminhar para novos rumos.
Tudo isso me fez lembrar a desvalorização das gerações mais velhas. A velocidade de novas tecnologias e formas de estar no mundo, a cada dia está mais acelerada, e são menores as chances dos mais velhos se adaptarem. A internet, as novas mídias, os novos Iphones, Ipads e outros “brinquedos” tecnológicos reforçam a sensação de inadequação das gerações anteriores. A velocidade das informações fazem com que netos desafiem a sabedoria dos avós, pais e tios. Há quem diga que já nascem com “chip”, conectados ao mundo de facebooks, orkuts e twitters. Interessante notar que a falta de um “casamento” adequado entre as duas gerações tem gerado problemas psicológicos de todos os tipos em ambas as gerações. O novo, quando não valoriza sua história, vive no automático, absorvendo excesso de informações sem qualquer tempo para digeri-las, experimentá-las de fato e entrar em contato com as sensações. A geração mais velha, quando paralisa, se recusa a reconhecer os aspectos positivos dos avanços tecnológicos, se fecha em um mundo que não mais existe, perdem a alegria de viver. Assim, temos os quadros patológicos extremamente opostos, ansiedade e depressão vão sendo constituídos em grande quantidade nesse novo milênio. E mais uma vez, penso eu, o caminho de volta é o amor, o cuidado, o diálogo. É valorizar o que é bom em cada geração, respeitar as diferenças e celebrar trocas, pois o verdadeiro e saudável encontro só é possível na diferença!
Voltando ao filme como se apresenta, trata-se de um romance delicioso, bem cuidado, envolvente, delicado que além de prestar uma homenagem ao cinema, trás um elenco impecável, uma trilha sonora belíssima e uma fotografia deslumbrante. Diferente do que estamos acostumados a ver, “O artista” é recomendado, não apenas por sua indicação ao Oscar, mas também, e, principalmente, porque cada um de nós tem em si um artista que trilha o caminho da vida. Confira, vale à pena!
(…)o filme fala sobre o amor, sobre admiração e a cima de tudo o respeito entre um homem e uma mulher.Crítica, leia mais clicando aqui.
The Artist resgata um pouco daquela magia, acertando o tom na homenagem ao cinema que, de quebra, fala sobre valores um tanto esquecidos também, como a gratidão, a generosidade e a capacidade de reinventar-se. (…) Genial a sequência do pesadelo dele, e a simbologia de que há som em tudo, menos na garganta do personagem, que parece “incapaz” de falar. Evidente que ele não era mudo, mas de uma forma simbólica ele “não consegue falar” porque não admite a mudança na indústria que lhe rejeita como “ultrapassado”. Ele não luta contra isso. Prefere se desfazer de todos os bens e abraçar incontáveis garrafas de bebida do que pedir um favor para os “cartolas” do cinema ou aderir ao cinema falado. No final, outra vez, o som entra em cena, quando ele decide acreditar que é possível recomeçar. (…) The Artist é também uma lição sobre recomeços, persistência e memória afetiva.Leia mais... 
SINOPSE
A trama é a história de vida de George Valentin, o interprete número um de Hollywood no tempo do cinema mudo. Seu sucesso era inegável e seu carisma garantia sessões lotadas. Certo dia, ele se esbarrou acidentalmente com um fã incondicional e com ela termina sendo capa do jornal. Ela, Peppy Miller, estava tentando começar uma carreira e com a ajuda dele consegue um primeiro trabalho. O mundo começou a mudar e com o avanço tecnológico, os filmes passariam a ter reprodução de vozes, o que para George era um absurdo e novidade pela qual ele recusou adaptar-se. Seu sucesso vai se esvaindo e sua alegria de viver se perde com ele. Peppy por sua vez, teve, com essa mudança, a grande chance de sua vida, mas nunca ela deixaria de ser grata ao homem que lhe ajudou e por quem ela sempre teve uma paixão.
TRAILER

6 comentários:

  1. Não poderia deixar de compartilhar o recado a seguir. Aproveito para agradecer publicamente o carinho e incentivo de pessoas tão especiais!
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    Blog nota 1000!
    Patrícia... parabéns por seu trabalho bárbaro! O site está fenomenalmente preparado com informações atrativas, interessantes e focadas nos assuntos tratados pelos filmes. Admirável, sábia e competente compilação de filmes e suas respectivas reflexões!!!
    Também queremos agradecer pela sugestão de nosso livro.
    Abraços e muito sucesso!
    Cristiane
    (e Hugo Ramón) São José do Rio Preto/SP

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  2. Olá, Patrícia. Antes de tudo: meus parabéns. Um blogger de um excelente conteúdo. Feliz por encontrar um blogger tão cheio de ideias humanísticas. A postagem acima está belíssima. Ainda não vi este, mas fiquei muito curioso e, em breve, irei conferi-lo. Sou professor de filosofia e espanhol e amante dos livros. A psicologia sempre a pus em um local de destaque em minhas leituras e ações. Também faço resenhas de filmes e sempre procuro adicioná-las um comentário na base do corpus da própria filosofia. Recentemente, trabalhei com uma Sessão Nietzsche e dois filmes que aborda aspectos filosóficos, psicológicos e históricos deste pensador. Gosto de Ignamar Bergman. Gostar é pouco. Sou fã dele. No mais um abraço e excelente trabalho. Estarei voltando outras vezes aqui. Será parada obrigatória. Um abraço. Seguindo...

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    1. Querido Maxwell,
      Muito obrigada pelo carinho e reconhecimento. Seus comentário serão sempre muito bem vindos, por favor nos dê a honra de compartilhar sua visão dos filmes. Quanto a suas resenhas, como é possível ler? Você tem BLOG ou site? Por favor nos informe, quem sabe assim posso colocar um link aqui.
      Abraços,
      Patrícia

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  3. Renata Rodrigues14 de maio de 2012 06:39

    Como me emocionei com o filme O artista! Numa sociedade, onde infelizmente, grande parte dela descarta o que nao lhe é mais útil, sempre em busca prazeres imediatos, onde muitas vezes, para aplacar essa incessante demanda de bem estar instantaneo, uns passam por cima do outros como tratores em troca de algo ou alguém que supra o querer sempre mais (mais moderno, mais funcional, mais imediatista).
    Na minha leitura, este filme nos propoe uma reflexao de como isso, muitas vezes sem nos darmos conta, impacta e destrói os sonhos alheios. Um trailer dotado de sutilezas, delicado, sensível e visceralemente impactante. Recomendo muito.

    Beijos!

    Renata Rodrigues

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    1. Querida Renata,
      Seus comentários são por demais preciosos e muito bem vindos. Sempre tão sensíveis e elucidativos, tornam-se ricos para trocas com outros olhares, enriquecendo sempre as postagens. Obrigada, volte sempre!

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  4. Renata Rodrigues14 de maio de 2012 11:26

    Obrigada a voce Paty, seu blog muito me inspira e amoooooo essa proposta, assim como te admiro demais enquanto profissional sensível e competente que és! Sou fa numero um do Psicologia e Cinema e com certeza continuarei contribuindo! Beijos com afeto.

    Renata Rodrigues

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