quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O Quarto de Jack


ASSUNTO
Relações afetivas e familiares, infância, sequestro, depressão, transtorno pós-traumático, relações sociais e potencialidades.

SINOPSE
O longa conta a história de Jack (Jacob Tremblay) , um menino de cinco anos que é criado por sua mãe, Ma (Brie Larson). Como toda boa mãe, Ma se dedica a manter Jack feliz e seguro e a criar uma relação de confiança com ele através de brincadeiras e histórias antes de dormir. Contudo, a vida dos dois não é nada normal: eles estão presos em um espaço de 10m², um minúsculo quarto sem janelas, com apenas uma claraboia Enquanto a curiosidade de Jack sobre a situação em que vivem aumenta, a resiliência de Ma alcança um ponto de ruptura. Os dois, então, começam a traçar um plano de fuga. Ao mesmo tempo em que conta uma história de cativeiro e liberdade, O Quarto de Jack destaca o triunfante poder do amor familiar mesmo na pior das circunstâncias.

TRAILER

O OLHAR DA PSICOLOGIA


Profundamente tocante, o filme é intenso, angustiante. Acompanhamos o início da trama sem compreender direito a razão daquela forma restrita de Ma educar o filho. Aos poucos percebemos a grandeza daquela mãe, que transforma a condição de cativeiro em um mundo particular, explorando a fantasia e transbordando afeto para seu filho. Jack desconhece a possibilidade de existir um mundo diferente daquele. Para ele, tudo que é apresentado na televisão é irreal, é fantasia, é de mentira. Ainda com a angústia provocada pelos acontecimentos restritos ao quarto, fomos transportados para "nossas neuroses de cada dia". É sabido sobre a importância dos eventos e impressões registrados em nossos primeiros anos de vida, compondo assim nosso mundo, que pode ser considerado verdadeiro e único. O que muitas vezes torna difícil aceitar outras perspectivas. Entretanto, ainda que as experiências iniciais sejam dolorosas, é possível que existam outras pessoas capazes de apresentar outras versões, que ampliam nossas possibilidades. Ainda assim, na infância há questões difíceis de serem questionadas ou superadas, dificultando nosso processo de desenvolvimento. Pode ser pela ausência de afeto, por excesso de “verdades”, por violência, valores restritos, julgamentos exacerbados, etc. Independente do que acontece nesta fase, é fato que  se torna parte do que nos tornamos,  parte difícil de ser desconsiderada ou questionada. Na abordagem Gestáltica, vemos o homem como um ser que se constrói através dos contatos que faz com o seu meio - pessoas com diferentes perspectivas -, num processo eterno de vir a ser. É muito importante mantermos contatos nutritivos, com pessoas que colaboram para nosso desenvolvimento, evitando cristalizações, engessamentos produzidos em contatos tóxicos – pessoas que prejudicam nosso processo. Muitas vezes, os contatos tóxicos da infância nos contaminam, tornando difícil aceitar outras perspectivas, produzindo conflitos que nos paralisam diante da vida. Sintomas diversos expressam a necessidade de mudança, ao mesmo tempo em que revelam um difícil obstáculo, em uma paralisação ou repetição É o momento de pedir ajuda profissional de um psicólogo, um psiquiatra ou ambos. Outras vezes, contatos nutritivos nos ajudam a superar tais conflitos, favorecendo nosso desenvolvimento através do afeto, transformando nosso mundo, até então empobrecido, restrito. Certamente, Jack tem afeto e suporte para seu desenvolvimento. No entanto, seu mundo se restringe ao quarto e sua mãe, um universo afetuoso, entretanto, limitado.
Durante o desenvolvimento da trama, é difícil não ser tocado pelas cenas que provocam raiva, angústia, medo, dor ou nojo. O olhar ingênuo de Jack encanta, permitindo ao espectador se identificar, ora com ele, ora com sua mãe. Sim, Ma ou Joy, tem outra perspectiva da situação. Ela sabe e conhece o mundo exterior, embora já tenha perdido contato com ele. Obviamente, na segunda parte do filme, acompanhamos a dificuldade de ambos em aceitar a complexidade do mundo real, repleto de opções e diferentes verdades. É emocionante acompanhar o primeiro contato de Jack com o mundo real e o reencontro de Joy com seus familiares. Aparentando um “final feliz”, o momento se revela apenas o final de um ciclo, aprofundando a temática da trama, ao revelar obstáculos difíceis de serem superados, durante o processo de integração deles com a realidade. A trama psicológica tem seu lugar ampliado nesta etapa, que apresenta situações conflituosas e dramáticas, capazes de provocar diferentes reflexões. Evitando detalhes que possam revelar o enredo, chamamos a atenção para o “quarto de Jack”, não só como um espaço físico, mas como lugar psicológico. Quem não tem um “quarto intocável”, lugar conhecido, seguro, zona de conforto, um lugar difícil de ser deixado para trás, ainda que não seja possível permanecer lá? Como aceitar a mudança, virar a página, fechar ciclos, quando a impressão é de que aquele lugar é único? Como enfrentar a despedida, vivenciar o luto em sua totalidade? É lindo assistir a plasticidade de Jack, que não só dá um passo para trás, para tomar impulso e seguir seu caminho, como indica para sua mãe a atitude necessária para virar a página: enfrentar seus fantasmas e seguir adiante. Filme difícil, impactante, provocante, dolorido, mas, imperdível, recomendo!

7 comentários:

  1. Bom dia, li seu texto sobre o filme e queria compartilhar minhas impressões sobre o mesmo, e como principalmente a leitura do livro fizeram toda a diferença em seu efeito. Primeio queria parabenizá-la pelas colocações mais do que pertinentes, e também por me identificar muito com seu ponto de vista sobre o filme. Quando terminei de ler o livro me senti meio órfão do Jack. A gente meio que adota o Jack depois de algumas páginas, ou é acolhido por ele, em sua sabedoria de pouca idade. Mas pra minha surpresa, no dias que se seguiram ainda podia ouvir a voz dele. Fico surpreso de o livro, tão reconhecido mundo afora, ser tão pouco conhecido no Brasil. Li o livro pela primeira vez em inglês, e encontrei umas pequenas coisas que me pareceram fazer mais sentido, depois, quando li a versão em português. Apenas umas rimas e misturas de palavras de Jack que se perdem um pouco na tradução para o português. Mas isso de forma alguma diminui o livro. Sou tradutor e revisor de livros e por conta da minha profissão digamos que já folheei muitas páginas ao longo da minha vida, mas confesso que nenhum livro tocou a minha alma onde o Jack conseguiu chegar. Quanto ao filme, apesar de não conter tudo o que há no livro, ainda assim emociona e nos faz pensar. O que eu posso dizer é que não consegui dormir aquela noite, ainda revendo tudo mais detidamente. Não sei por que, mas senti uma vontade – não, uma necessidade, de pôr no papel o que tinha visto e descrever o que tinha sentido, o mesmo de quando li o livro (mas que até então tinha ficado apenas guardado comigo). Depois de algumas linhas, me senti compelido a escrever pra minha mãe (É, uma carta mesmo, papel, caneta, selo, essas coisas! É que ela não se dá muito com e-mails e mora em outra cidade). É bem peculiar o que um filme desses provoca nas pessoas – acho que em mim foi uma vívida sensação de familiaridade com as palavras do Jack.
    Aqui está um trecho: (no post seguinte)

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    1. Kleber,
      Fiquei encantada com sua participação, que partilha conosco uma percepção rica e ampliada. Obrigada por nos enriquecer com seu olhar. Volte sempre!!!

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  2. "Não consegui dormir essa noite, ainda pensando no filme. Na verdade, quando eu li o livro já tinha ficado do mesmo jeito, meio sem saber o que dizer. Mas acho que as imagens do filme são mais fortes do que as palavras do livro, e mais do que pensar, te fazem reviver. Acho que me vi de novo com 5 anos, mesmo que as lembranças sejam igual um filme muito antigo que a gente não sabe direito de quando foi. Queria me lembrar mais, queria ver aquele garoto, mais nitidamente do que as lembranças meio apagadas que eu tenho. Nenhum garoto de 5 anos tem idéia do que as mães passam pra criá-los. E acho que mesmo depois, quando a gente cresce, parece não se dar conta – ou importância. Talvez eu tenha feito pouco, talvez pudesse ter feito mais. Na cabeça de uma criança, ser um bom filho parece menos que obrigação e mais um tipo de barganha, quando você quer alguma coisa em troca. Não é por maldade, talvez apenas a simplicidade ingênua que a gente tem quando é pequeno e que se perde com o tempo.
    As lembranças que eu tenho às vezes parecem meio embaralhadas, meio esfumaçadas pelo tempo... Lembro de uma escola enorme, e tão longe que pra chegar parecia uma aventura, até mesmo passar na porta de um cemitério era preciso. E nem imaginava que aquilo tudo custava dinheiro, e o quanto custava. Fico imaginando quantas roupas lavadas deve ter custado. Deve ser por isso que me lembro tanto de roupas no varal, de me esconder no meio delas pra brincar. Lembro de uma noite de febre muito forte, de uma mãe com um filho... um carro, um hospital. Lembro de uma mãe carregando um menino como pé enfaixado, descendo um morro esburacado, acho que era uma kombi de escola que esperava lá embaixo. Lembro de uma mãe com um filho e umas bolsas, subindo outro morro, esse de tão alto parecia uma montanha, e que pra se chegar lá tinha que atravessar uma passarela escura, que no fim dava voltas e mais voltas... Lembro de uns pés de mato que a mãe mandava o menino apanhar no quintal, e que era para pôr na comida, e dava um gosto bom.
    (segue)

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  3. Não me lembro de muitos natais. Nem de presentes de natal embaixo de árvore de natal. Não que não tivesse presentes, mas aquilo que se via na tv, que as pessoas faziam no natal, parecia de algum filme, ou só da tv. Talvez porque comida fosse mais importante que árvore de natal, ou porque o papai noel devia ser gordo demais pra subir o tal morro esburacado. De qualquer forma, isso não mudava a sensação de que era uma época especial, de que alguma coisa acontecia, pelo menos nas casas das pessoas, que pareciam sempre tão cheias de gente, de barulho e de cheiros. Mas se isso tornou mais difícil acreditar num velho gordo de barba branca e roupa vermelha, ao menos me ensinou o quão fúteis podem ser os motivos que levam as pessoas a se empanturrarem numa noite de dezembro, e que o sentido do natal é qualquer coisa menos comida.
    Depois que se cresce, quando a gente não precisa mais ir à escola, e acha que já aprendeu tudo, que finalmente virou gente grande, o que resta são as lembranças. E acho que esse é o nosso maior engano - achar que já aprendeu tudo. Acho que aqueles que fixam os olhos só pra frente mais cedo ou mais tarde acabam se perdendo no caminho, por isso não esqueço do menino da história, que deixava pedaços de pão no meio do mato pra lembrar do caminho de volta – João e Maria, acho. Quando olho pra trás, e acabo descobrindo as migalhas que ficaram no caminho, eu sei que posso voltar. Ainda reconheço as feições daquele menino, posso ouvir os sons da noite que o faziam dormir todo encolhido debaixo do cobertor, posso sentir o cheiro que inundava aquela casa velha, com aromas de arroz, feijão apitando na panela de pressão, e alguma outra coisa gostosa e indistinta no prato, que tinha de me apressar a comer pra não perder a hora da escola. Lembrar de tudo isso, de todas essas migalhas de pão, me ensinam que eu não aprendi tudo que tinha pra aprender, que a última lição é não esquecer. Não esquecer os conselhos, a mudez, o sorriso, a zanga, as dores. Acho que é disso que somos feitos, de um punhado de migalhas de pão guardadas, pra nos lembrar do caminho de casa."

    Bom, esse comentário não foi de forma alguma um tipo de terapia, ou "sessão online", apenas queria mostrar como tudo o que você disse foi tão vívido em minhas impressões sobre a história, e também o poder de um bom texto (nesse caso, o livro) pra nos fazer entrar em contato com lembranças e sentimentos tão antigos e bem guardados, mas que estão encrustados em nós, na nossa alma, no nosso caráter e nem nos damos conta disso.
    Um abraço, Kleber Cruz

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    1. Kleber,
      Quando possível, por favor, nos presenteie com um link do seu blog ou site, para termos a oportunidade de acompanhar suas reflexões. Suas linhas inspiram, terei muito gosto em acompanhar. Volte sempre, adorei!
      Abs,

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  4. Acho incrível a capacidade q algumas pessoas tem de dissertar de forma tão clara sobre opiniões tão íntimas (impressões, lembranças, sentimentos) e únicas de forma a fazer o leitor tomar para si.
    Agradeço desde já ao texto da Patrícia e ao comentário do kleber q me fizeram refletir de forma mais amplar e aberta e ver o enrredo sobre a perspectiva de vcs q eu tenho q falar...foi excelente!

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    1. Olá,
      Muito obrigada pelo reconhecimento. Quanto ao Kleber, a participação dele foi muito mais do que um simples comentário, ele nos presenteou com um texto de primeira qualidade, capaz de alimentar nossa singularidade, divino! A você, seja quem for, muito obrigada pela participação e contribuição, alimentando ao nosso "fazer" de cada dia!
      Abs

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