domingo, 18 de março de 2018

Com amor, Van Gogh



ASSUNTO

Relações familiares, sociais e afetivas, suicídio, psicodiagnóstico, saúde mental e arte.

SINOPSE

1891. Um ano após o suicídio de Vincent Van Gogh, Armand Roulin (Douglas Booth) encontra uma carta por ele enviada ao irmão Theo, que jamais chegou ao seu destino. Após conversar com o pai, carteiro que era amigo pessoal de Van Gogh, Armand é incentivado a entregar ele mesmo a correspondência. Desta forma, ele parte para a cidade francesa de Arles na esperança de encontrar algum contato com a família do pintor falecido. Lá, inicia uma investigação junto às pessoas que conheceram Van Gogh, no intuito de decifrar se ele realmente se matou.

TRAILER


O OLHAR DA PSICOLOGIA

A animação é uma obra prima, trazendo para a telona a arte de Van Gogh em movimentos, tão tocantes quanto suas obras. Como qualquer obra prima, inspira diferentes percepções no espectador. A animação quase documental, não se furta de evidenciar conflitos existenciais de sua história, traduzidos em suas obras. Tal qual Armand, personagem que investiga a vida do artista, somos conquistados aos poucos, pela riqueza de situações emocionantes e curiosas em torno do mestre. Alguns elementos históricos foram incluídos na trama, de forma tão sensível, que o filme se torna magnífico. Um dos aspectos que mais me tocou, tem a ver com repetidas angústias que chegam diariamente ao consultório de psicologia. Falamos da dificuldade daqueles que não se “encaixam” no que a família ou a sociedade espera dele. Encontrar a própria vocação, em meio às pressões familiares e sociais, pode ser dilacerante. Família e sociedade funcionam com seus padrões de exigência, muitas vezes desestimulando, reprovando, sufocando a singularidade do ser. A adolescência, momento de ENEM, de pressão versus sensações intensas, podem desencadear frustrações insuportáveis. A ausência de suporte pode agravar a situação. A crítica, a reprovação, afeta o processo de identidade da pessoa, sua auto estima pode ser prejudicada. A depressão, mal do século, pode ser considerada como a melhor alternativa, que o sujeito encontra para lidar com a situação. Longe de apontar uma relação causal para a depressão, estamos partilhando uma reflexão provocada pela trama.
Não há conclusão alguma sobre o que de fato aconteceu com Van Gogh. Ao contrário, outras questões são suscitadas. Uma delas se refere aos padrões exigidos para os jovens, muitas vezes, sem terem a chance de descobrir a si mesmos. Lembramos do Antonio Gaiarsa, em seu alerta às mães, que precisavam ouvir mais seus filhos, no lugar de seguir “receitas prontas” sobre a boa educação. Não temos como saber ao certo como tudo poderia ter sido diferente, mas é um aspecto possível para reflexão. O diagnóstico de Van Gogh tem sido um desafio para a psiquiatria, que aponta diferentes possibilidades.  Ele viveu atormentado por desequilíbrios emocionais, por sua incapacidade de estabelecer relações duradouras, por seus episódios irracionais, pela impulsividade e a oscilações de humor. Há indicações de epilepsia, intoxicação, abuso de absinto, além da sugestão de diferentes transtornos, desde a esquizofrenia ao transtorno bipolar. Fato é que sua obra só foi reconhecida após a sua morte, revelando a falta de reconhecimento de si mesmo, não só como artista, mas, principalmente, como pessoa pertencente ao mundo que habita. Independente de seu diagnóstico, suas obras são evidências de um dom espetacular, capaz de capturar o público em suas formas e cores, que já sugeriam movimento, muito antes da animação existir. Suas relações consigo e com o mundo podem ser apreciadas no filme, num entrelaçamento constante entre fatos e diferentes obras produzidas por ele. Por se tratar de um tipo  inédito, repleto de possibilidades, recomendamos o filme, um lindo convite para cada espectador vivenciar a própria experiência.   

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