sábado, 17 de janeiro de 2015

Para sempre Alice

clip_image002ASSUNTO
Alzheimer, relações familiares, afetivas e sociais, luto, momento presente - Abordagem gestáltica.
SINOPSE
A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguistica. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), fragiliza, ela e a filha Lydia  (Kristen Stewart) se aproximam.
TRAILER
O OLHAR DA PSICOLOGIA
Filme sobre Alzheimer não é novidade, o tema já foi debatido em outras películas. O que há de novo nessa versão? Além de retratar a doença precoce, em sua versão rara, hereditária, que atinge pessoas em fases mais precoces da vida, o filme nos faz refletir sobre outros aspectos: processo de perda, adoecimento inesperado e relações familiares. Acompanhar a jornada de Alice não é nada fácil. Tocante, emocionante, dramático, o filme nos faz refletir sobre muitos aspectos, seja sobre o Alzheimer, sobre valores ou qualquer outra doença, que pode ser inesperada e atingir toda a família. Existe também um aspecto informativo no filme. Por exemplo, minha mãe tinha o hábito de fazer palavras cruzadas. Ela dizia que isso ajudava a exercitar a memória e evitar algumas demências. Se existe um aspecto positivo nisso, não tem qualquer relação com a capacidade cognitiva, como pode fazer crer. Talvez, ajude no exercício da repetição, como uma gravação que firma sua marca, tornando mais difícil perdê-la. No filme, quando o marido pergunta a respeito da preocupação com deterioração acelerada da memória, o médico diz: “Cada caso é diferente, casos familiares podem evoluir bem rápido. E, nas pessoas com alto grau de instrução, as coisas podem ser ainda mais aceleradas. Elas sustentam processos mentais por mais tempo, e isso atrasa o diagnóstico”. Ele afirma, assim, que as pessoas mais inteligentes, ao contrário do que possa ser esperado, podem ser as que mais se comprometem com o processo. Dentre os interessantes informativos, há também a visão do doente. Na cena em que a filha caçula pergunta como é estar assim, Alice esclarece: “Não é sempre a mesma coisa, tem dias bons e dias ruins. E nos dias bons, quase sou uma pessoa normal. E nos ruins, não consigo me encontrar. Eu sempre fui muito guiada por meu intelecto, pelo meu modo de falar, articulação. E agora, vejo as palavras na minha frente e não consigo me expressar. Não sei quem sou, não sei o que mais vou esquecer.”
Em família é sempre muito difícil enfrentar os casos de doenças, que sempre são inesperadas. A família precisa se reconfigurar diante das mudanças impostas pela doença. Nesses momentos, cada qual reage de forma diferente, alguns membros familiares enfrentam a situação, se adaptando às mudanças como possível e outros fogem da situação. Não se trata de julgar a reação como positiva ou negativa, o mais importante é perceber que cada um reage como é possível. Algumas características, como o tipo de vínculo construído, o gênero ou a ciclo de vida individual podem contribuir de forma positiva ou negativa neste comportamento. O fato é que não é fácil para ninguém, ser surpreendido com mudanças significativas em suas rotinas que podem fugir ao controle. O quadro diagnóstico de Alzheimer, como tantos outros, trará prejuízos significativos no ambiente familiar. A doença se torna familiar. Assim como outras doenças, o enfermo mobilizará seu entorno em função da progressão de sua afecção. Em um momento da fita, Alice afirma que preferiria ter Câncer, pois assim seria algo visível, mobilizando a solidariedade e reconhecimento a sua volta. Sua enfermidade traz como consequência a perda de si mesma, da própria identidade, que não pode ser reconhecida nem por si, nem pelo outro. Se por um lado, a memória lhe prega peças, tornando difícil à própria identificação, por outro, as pessoas do seu habitat esperam se relacionar com uma pessoa que não mais existe. Em diferentes momentos, Alice sinaliza a importância de viver o momento presente, principalmente quando a memória remanescente (aquela que ainda resta - a mais antiga é a última a desaparecer) começa a ser perdida. O processo de luto começa muito antes da perda física do paciente, que apresenta perdas progressivas de memória, da mais complexa até a mais simples. Em seu discurso, já com sua memória bastante comprometida, Alice sinaliza a memória como o conjunto de experiências que constrói nossa identidade. Ela diz: “Eu não estou sofrendo, eu estou lutando, lutando para fazer parte das coisas. Para me manter ligada a pessoa que eu era. Eu digo a mim mesma: ‘Viva o momento’. É tudo o que posso fazer. Viver no momento.” Somos tocados em diversos momentos da fita, que nos faz refletir sobre o valor do temos. De fato, o ser humano tem o hábito de valorizar o que não tem e não dar valor ao que vive ou tem no momento presente. O melhor presente é o agora, mas existe uma tendência a lamentação pelo que ainda não temos ou o que um dia perdemos. Nossas afecções psicológicas tem direta ligação com esse aspecto, pois quando nossa energia está investida no futuro, algum sintoma de ansiedade nos acompanha. Por outro lado, se nossa energia estiver investida naquilo que não mais existe, no tempo que já passou, os sintomas da depressão poderão nos acometer. E o presente, que é o único momento que exsiste, como habitá-lo em sua plenitude? Freud registrou que a falta e o desejo são semelhantes, pois é preciso não ter para desejar. É bom sonhar em preencher qualquer vazio o que desejamos, entretanto, olhar a falta como um momento paralisante é se perder no espaço e no tempo, e, perder a única coisa que temos, o momento presente!! Em nossa visão de mundo, - como prega a abordagem gestáltica - é  preciso apurar nossos sentidos (recuperar nossos sentidos),  para que o mundo adquira sentido no único momento possível, O AGORA, um PRESENTE que deve ser apreciado. Esta parece ser a melhor mensagem de PARA SEMPRE ALICE. Confira!




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua opinião é muito importante!