quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

A Garota Dinamarquesa


ASSUNTO
Relações afetivas e sociais, sexualidade, transsexualidade, transtorno de identidade de gênero.

SINOPSE
Não recomendado para menores de 14 anos 

Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco o relacionamento amoroso do pintor dinamarquês com Gerda (Alicia Vikander) e sua descoberta como mulher.

TRAILER

O OLHAR DA PSICOLOGIA

O filme é a cinebiografia de Lili Elbe, nascido Einar Mogens Wegener, um artista plástico dinamarquês que teria sido a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. A década de 20 era um momento em que a medicina ainda não estava preparada para lidar com as possíveis complicações daquela intervenção. É preciso considerar que o filme foi baseado em um livro, que por sua vez foi baseado em uma história real, um marco na história da medicina e uma porta que se abria para os transexuais. Na adaptação para o cinema, importantes detalhes foram omitidos ou modificados. Por exemplo, Lili foi submetida a 4 cirurgias, pois encontrou o amor e pretendia constituir família, ter filhos. Segundo diversos relatos, na ocasião de sua morte, Gerda já não convivia com Lili, que estava acompanhada de seu novo amor, um curador de artes. Gerda, por sua vez, bissexual assumida, após se divorciar do segundo marido, não obteve sucesso profissional e se tornou alcoólatra, encerrando sua passagem pela vida no anonimato. Embora não haja qualquer menção à bissexualidade de Gerdra na trama, é possível considerar algumas pistas, seja no roteiro ou na interpretação da atriz. A trama foca o relacionamento do artista com sua esposa Gerda,  sua descoberta como mulher e a reação de ambos durante o processo. Não há exposição sobre as reações da sociedade. As críticas não foram favoráveis nem ao desfecho do filme, nem a forma, sendo considerada por muitos como rasa na abordagem do assunto. Fato é que o enredo abre uma brecha para discussão e melhor compreensão do que é ser transexual. Esclarecendo: Diferente da homossexualidade, que é caracterizada apenas pela atração sexual e afetiva entre indivíduos do mesmo sexo, sem que haja incômodo com o próprio corpo, a transexualidade traz uma pessoa que não se identifica com o seu corpo, seu gênero psicológico não corresponde ao físico.  Independente da ficção, a trama denuncia algumas questões reais. Por exemplo, na procura de solução para seu incômodo, Lili encontra até o diagnóstico de esquizofrenia. Dentre outras intervenções que tentavam "resolver" a questão, o choque também foi utilizado,
Ao longo da história, diferentes classificações foram utilizadas para diagnosticar indivíduos. A última classificação americana dos transtornos mentais (DSM-IV-TR) retirou dos seus diagnósticos os termos transexualismo, travestismo e homossexualismo. Ao invés disso, adotou-se o termo Transtornos da Identidade de Gênero, que é visto como menos preconceituoso ou discriminatório. Hoje, o sofrimento do indivíduo,, que não se identifica com seu corpo, pode ser amenizado através de uma intervenção cirúrgica mais segura. Entretanto, ainda vivenciamos pensamentos retrógrados em relação ao tema. Talvez, seja a razão da perspectiva rasa adotada. Ainda assim, o filme oferece um olhar suave e delicado, capaz de tocar o espectador. Na trama, acompanhamos Einar adotando com naturalidade os adereços femininos e, paulatinamente, reconhecendo o próprio corpo como algo que não corresponde à mulher que descobre habitar o seu ser. Aos poucos, Einar vai deixando de existir, dando lugar a Lili, um ser atormentado por habitar um corpo que sente como estranho a si. Antes da transformação, ele é retratado em sua rotina boêmia, acompanhando a esposa em aventuras diversas, incluindo as cenas sexuais do casal. Até então, Einar demonstra apetite sexual pela esposa. São sutis os detalhes que mostram as iniciativas mais presentes nas atitudes de Gerda, só emergindo no decorrer da trama. É também a esposa que inicia o movimento de apreciar o marido vestido de mulher. Aos poucos, ele vai descobrindo sua identificação com o que podia ter sido fantasia, e Lili passa a ser a própria identidade. Não é mais possível retornar ao lugar que esteve até então. As angústias experimentadas por Einar são apresentadas em delicados movimentos, são expressões suaves adotadas pelo ator. Mais do que diálogos, os gestos expressam a inquietude que pode tocar o espectador. O drama é provocador e as questões são sutis, o que não pode ser percebido e/ou aceito por qualquer público. Quase um século depois, ainda temos dificuldade para discutir abertamente sobre tudo que está fora do comum, ou seja, tudo que é diferente. As questões de gênero continuam urgentes e a sociedade precisa discutir e aceitar possibilidades de existência fora da “caixinha”. 

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