quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Jogo da Imitação

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Relações sociais, familiares e afetivas, homossexualidade, genialidade, coportamento anti-social.
SINOPSE
Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico monta uma equipe que tem por objetivo quebrar o Enigma, o famoso código que os alemães usam para enviar mensagens aos submarinos. Um de seus integrantes é Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um matemático de 27 anos estritamente lógico e focado no trabalho, que tem problemas de relacionamento com praticamente todos à sua volta. Não demora muito para que Turing, apesar de sua intransigência, lidere a equipe. Seu grande projeto é construir uma máquina que permita analisar todas as possibilidades de codificação do Enigma em apenas 18 horas, de forma que os ingleses conheçam as ordens enviadas antes que elas sejam executadas. Entretanto, para que o projeto dê certo, Turing terá que aprender a trabalhar em equipe e tem Joan Clarke (Keira Knightley) sua grande incentivadora.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
O filme é baseado na vida do cientista Alan Turing, matemático considerado o pai da computação. Retratado com dificuldade de contato social, o gênio é um homem obcecado por seu trabalho, atividade que o encanta desde a infância. Por meio de flashbacks, somos apresentados aos momentos difíceis de seu desenvolvimento. Vítima de Bullying, incompreendido e com sérias dificuldades para entender as regras sociais de comunicação, porque não dizer as mentiras sociais, seu crescimento foi marcado por conflitos. Algumas cenas trazem situações surreais, pouco críveis, mas que podem ser perdoadas por conta do que é chamado de ‘licença poética’. Obviamente, as oscilações de incompreensão/compreensão de situações metafóricas, piadas e outras formas de comunicação não estão comprometidas com o quadro sugerido, pois a aprendizagem seria possível, mas trata-se de uma repetição aprendida e não uma reação natural. Fora isso, temos uma questão desumana no que se refere a homossexualidade. Sim, o rapaz é homossexual numa época em que, na Inglaterra, tal condição era considerada crime. Ele é arrogante, narcisista, grosseiro, incapaz de compreender mentiras, rodeios e metáforas, mas é um gênio. Desde criança, aprende a mentir para se manter em seu mundo lógico, distante da crueldade social e esconde sua homossexualidade.

Tangerinas

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Guerra, violência, relações afetivas, sociais, humanismo – valores humanos, humanidade, amizade, perdas.
SINOPSE
Aldeias estonianas foram formadas na Abecásia, na segunda metade do século 19. A guerra entre Georgia e Abecásia começou em 1992 e alterou a vida pacífica dos habitantes estonianos. A comunidade da Abecásia quer se tornar independente da Geórgia. Quase todos os habitantes já deixaram a aldeia. As aldeias ficaram vazias, apenas alguns permaneceram. A história de Ivo (Lembit Ulfsak), que com a ajuda do produtor de tangerinas Margus (Elmo Nüganen) e o médico Juhan (Raivo Trass), salva a vida do checheno Ahmed (Giorgi Nakashidze) e do georgiano Niko (Misha Meskhi), em um povoado estoniano da Abecásia no meio da guerra de 1992.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
Filme para poucos, a trama tem como pano de fundo o período após a dissolução da União Soviética, quando muitos conflitos foram iniciados. Embora retrate o embate entre russos e georgianos, o tema central é a humanidade que há por trás do conflito. Não se trata de um filme de guerra, como tantos outros, que colocam o "foco" na ação. Não, os conflitos retratados são muito mais aqueles internos, os que não produzem grandes efeitos visuais. Restrito a poucos personagens e a apenas parte da aldeia, o filme é lento,  embora tenha seu tempo de projeção considerado curto. Abecásia se torna uma região de fronteiras disputada. Desde o século dezenove muitos estonianos lá se instalaram, colaborando para que as tangerinas fossem consideradas produção típica da região. Desde o início da guerra, muitos retornaram para terra natal. Dentre os poucos que restam no vilarejo, estão Margus e Ivo, ambos estonianos. O primeiro não quer desperdiçar sua colheita, considerando a possibilidade de partir após comercializar suas tangerinas. Já o marceneiro Ivo, além de ficar para ajudar o amigo, logo deixa claro o seu amor pelo lugar onde constituiu família. Todo o filme é passado no vilarejo, seja na casa de Ivo ou no pomar de Margus. O isolamento da aldeia não é suficiente para manter a guerra afastada. Os russos contratam os chechenos como mercenários que, ao encontrarem Georgianos nas proximidades, travam combate armado. Ivo, junto ao amigo, recolhe os sobreviventes e os acolhe em sua casa. Ahmed e Niko se odeiam por princípio, estão em lados opostos, o primeiro é Checheno e muçulmano, o segundo Georgiano é cristão ortodoxo. Outra perspectiva da guerra é colocada em foco, através desse conflito sabiamente controlado pelo por Ivo, que tal qual um avô sábio, se torna maestro naquele dissonante conjunto de dois "netos".

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Birdman

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Indústria cultural, indústria do consumo,  vivência de papéis, crise de meia-idade, relações familiares, afetivas e sociais.
SINOPSE
No passado, Riggan Thomson (Michael Keaton) fez muito sucesso interpretando o Birdman, um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com o personagem sua carreira começou a decair. Em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Entretanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
imageDemorei muito a escrever sobre o filme, tamanho assombro que me provocou. Agora, como vencedor do oscar, não posso continuar protelando. Vamos lá: O filme é complexo, provocador, existencial, crítico, profundo. Podemos nos reter na história contada, de um ator em crise, diante da possibilidade de arriscar o sucesso, sendo quem ele é, sem máscaras. Não se trata de um filme sobre super-herói, embora ele seja mencionado. O papel de herói foi um dia pesado demais para o ator, que agora, em crise de meia idade, assistindo sua família desintegrar, decide arriscar ao estrelato vivendo um papel menos clichê e mais existencial. Se por um lado, a necessidade é se mostrar sem máscara, por outro há uma voz interna ameaçando a impossibilidade de ser aceito por seu talento real, de cara quase limpa. Seria a voz de seu ego ou o ser se desintegrava em surto psicótico? Os bastidores revelam as dificuldades reais de um projeto tão ousado, ambicionando retratar o “ser” em detrimento do “ter”, como reagiria a público? Trata-se apenas de uma crítica óbvia a indústria cultural cinematográfica de nossos tempos ou podemos nos aprofundar mais? No que é possível se identificar diante das angústias do protagonista?

domingo, 18 de janeiro de 2015

Teoria de tudo

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Relações familiares, sociais, acadêmicas, afetivas e terapêuticas – auto-suporte. Conceitos gestálticos: Priorizar os sentidos, momento presente, teoria paradoxal da mudança (aceitar o que está sendo para que a mudança ocorra, favorecendo se tornar quem de fato é).
SINOPSE
Baseado na biografia de Stephen Hawking, o filme mostra como o jovem astrofísico (Eddie Redmayne) fez descobertas importantes sobre o tempo, além de retratar o seu romance com a aluna de Cambridge Jane Wide (Felicity Jones) e a descoberta de uma doença motora degenerativa, quando ele tinha apenas 21 anos.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
O filme retrata um período importante da vida do famoso astrofísico, que foi acometido ainda jovem pela doença degenerativa denominada ‘síndrome de Charcot’. O médico informa, ao esclarecer o caso, que embora a doença não vá afetar o seu cérebro,  a ligação entre este e os músculos será interrompida gradativamente, o que impossibilitará sua comunicação com seu entorno. Ao assistir a cena em que o médico fez tal declaração, fiquei me perguntando como o jovem astrofísico poderia sobreviver ao rompimento de sua relação com o mundo. A abordagem gestáltica prioriza o ‘entre’, a “fronteira” é considerada como o lugar de desenvolvimento da existência. O “contato” é a realidade mais simples e primeira, sem o qual não há construção de indivíduo - individuação. Este contato com o que está “fora” vai dando contorno à noção de quem somos. Como seria para o astrofísico sobreviver sem a possibilidade de contato? Seu momento trouxe um contato especial, capaz de expandir as próprias fronteiras: o amor. Razão e emoção se encontram e perfazem novas configurações. Ele está determinado a encontrar uma “eloquente explicação” para o Universo, seu mundo é matemático, racional. Ele busca a lógica, tem o objetivo de explicar fenômenos do universo, como o tempo. Jane, por outro lado, é emocional, poética e personifica a fé, busca a compreensão do universo através dos sentidos. Esse encontro torna possível expandir suas fronteiras, permitindo que as probabilidades científicas sejam desafiadas. O “tempo”, seu objeto de estudo, é vivido em sua plenitude pelo casal, que encontra novas alternativas para cada novo desafio imposto pela enfermidade.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Para sempre Alice

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Alzheimer, relações familiares, afetivas e sociais, luto, momento presente - Abordagem gestáltica.
SINOPSE
A Dra. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguistica. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), fragiliza, ela e a filha Lydia  (Kristen Stewart) se aproximam.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
Filme sobre Alzheimer não é novidade, o tema já foi debatido em outras películas. O que há de novo nessa versão? Além de retratar a doença precoce, em sua versão rara, hereditária, que atinge pessoas em fases mais precoces da vida, o filme nos faz refletir sobre outros aspectos: processo de perda, adoecimento inesperado e relações familiares. Acompanhar a jornada de Alice não é nada fácil. Tocante, emocionante, dramático, o filme nos faz refletir sobre muitos aspectos, seja sobre o Alzheimer, sobre valores ou qualquer outra doença, que pode ser inesperada e atingir toda a família. Existe também um aspecto informativo no filme. Por exemplo, minha mãe tinha o hábito de fazer palavras cruzadas. Ela dizia que isso ajudava a exercitar a memória e evitar algumas demências. Se existe um aspecto positivo nisso, não tem qualquer relação com a capacidade cognitiva, como pode fazer crer. Talvez, ajude no exercício da repetição, como uma gravação que firma sua marca, tornando mais difícil perdê-la. No filme, quando o marido pergunta a respeito da preocupação com deterioração acelerada da memória, o médico diz: “Cada caso é diferente, casos familiares podem evoluir bem rápido. E, nas pessoas com alto grau de instrução, as coisas podem ser ainda mais aceleradas. Elas sustentam processos mentais por mais tempo, e isso atrasa o diagnóstico”. Ele afirma, assim, que as pessoas mais inteligentes, ao contrário do que possa ser esperado, podem ser as que mais se comprometem com o processo. Dentre os interessantes informativos, há também a visão do doente. Na cena em que a filha caçula pergunta como é estar assim, Alice esclarece: “Não é sempre a mesma coisa, tem dias bons e dias ruins. E nos dias bons, quase sou uma pessoa normal. E nos ruins, não consigo me encontrar. Eu sempre fui muito guiada por meu intelecto, pelo meu modo de falar, articulação. E agora, vejo as palavras na minha frente e não consigo me expressar. Não sei quem sou, não sei o que mais vou esquecer.”

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Elsa e Fred

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ASSUNTO
Relações familiares, afetivas e sociais, terceira idade, luto
SINOPSE
Elsa (Shirley MacLaine) é uma mulher de idade que vive sozinha. Um dia, ela comete uma barbeiragem ao sair com o carro e quebra os faróis do carro de Lydia (Marcia Gay Harden), a filha de seu novo vizinho, Fred (Christopher Plummer). Revoltada com o ocorrido, Lydia exige que Elsa pague o conserto. O filho de Elsa (Scott Bakula) aceita cobrir os danos mas, ao entregar o cheque a Fred, Elsa lhe conta uma história triste que acaba convencendo-o a recusar o valor. Com o tempo, Elsa e Fred se aproximam cada vez mais, apesar do temperamento bastante diferente. Enquanto ela é cheia de vida, ele é rabugento e mal quer sair de casa.
TRAILER
Elsa & Fred (2005)
imageSINOPSE
Fred (Manuel Alexandre) é um pacato senhor com quase 80 anos que se muda para um novo prédio, logo após ficar viúvo, e conhece Elsa (China Zorrilha) sua vizinha também com quase 80 anos. Ela, que sofre de grave doença, é muito atirada, otimista e comunicativa, e tenta viver intensamente cada dia, enquanto Fred é um hipocondríaco e quieto. Mesmo com essas diferenças, e pela insistência de Elsa, essas diferenças são superadas e juntos redescobrem o prazer de viver, a cumplicidade e a amizade.
TRAILER
O OLHAR DA PSICOLOGIA
Entre os temas presentes no filme está a dificuldade em superar o luto na viuvez. A perda de um ente querido, com quem foi compartilhada boa parte da vida, o que trás complicações para aquele que fica. Independente de a relação ter sido feliz, a interrupção de uma rotina partilhada pode levar a quadros depressivos. Muitas vezes quando há a morte de um dos cônjuges a família destitui o lugar daquele que está vivo, e dá pouco espaço para que o indivíduo possa elaborar seu luto. Para quem não sabe “Elsa & Fred” é uma refilmagem de um filme hispano-argentino de 2005. Infelizmente, apesar de ter um elenco extraordinário, confesso que gostei mais da interpretação e do roteiro do filme hispano-argentino. Além disso, a nova versão também modifica consideravelmente a personalidade dos protagonistas. Na versão argentina, Fred é um senhor viúvo, romântico, reflexivo, melancólico e muito, muito doce. Diferente da nova versão, que traz um Fred muito ranzinza e carrancudo, apesar do bom coração. A versão contemporânea tende mais para a comédia e o pragmatismo americano, tirando o encanto, a poesia, a reflexão delicada que a primeira oferece. Em todo caso, ambas discutem as dificuldades da terceira idade, o luto, a possibilidade de vivenciar o amor e as diferentes formas de enfrentar a vida e a morte.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

No espaço não existem sentimentos

ASSUNTO
Síndrome de Asperger, Relações familiares, sociais e afetivas, diferenças, amizade, amor fraterno.
SINOPSE
Quando a namorada de Sam rompe o relacionamento, ele fica muito deprimido. Para animá-lo e fazer com que volte à sua vida normal, Simon decide ajudar o irmão a encontrar uma nova e perfeita namorada. Mas, vítima da Síndrome de Asperger, Simon percebe que a busca é muito mais complicada do que poderia imaginar e fica em dúvida se realmente poderá ajudar Sam.
TRAILER
O OLHAR DA PSICOLOGIA
O título do filme nos remete ao funcionamento de Simon, que tem dificuldade de comprender e expressar sentimentos, mas se sente seguro onde não precisa lidar com emoções. O chefe de Simon diz: “Anda, tempo é dinheiro!” E Simon responde: “Tempo é tempo, dinheiro é dinheiro.” É assim que funciona para os portadores da Síndrome de Asperger, não há facilidade na compreensão do que que não é literal. Ele usa uma roupa que o identifica como portador da síndrome, deixando claro que não gosta de ser tocado, pois perde a tranquilidade e o controle nessas ocasiões. Outro problema para ele é mudar a rotina, qualquer coisa que saia do controle compreensível, previsível, repetido, para ele é sinônimo de caos. Ele não entende muito bem o mundo, e as pessoas em geral,  que por sua vez não entendem ele. Os pais não conseguem falar sua língua e qualquer ameaça de desestabilizar seu universo, ele se esconde em sua “nave”, um latão fechado, ou reage agressivamente.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Homens, mulheres e filhos

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Relações interpessoais, relações familiares, afetivas e sociais, sexualidade, anorezia, pornografia
SINOPSE
Adultos, adolescentes e crianças amam, sofrem, se relacionam e compartilham tudo, sempre conectados. A internet é onipresente e, nesta grande rede em que o mundo se transformou, as ideias de sociedade e interação social ganham um novo significado. Algumas situações como um casal que não tem intimidade; uma garota que quer ser uma anoréxica melhor; um adolescente que vive em num mundo de pornografia virtual, fazem o expectador repensar a relações humanas.
Homem, Mulheres & Filhos´ conta a história de um grupo de adolescentes do ensino médio e de seus pais enquanto tentam lidar com as diversas maneiras nas quais a Internet mudou seus relacionamentos, suas comunicações, suas auto-imagens e suas vidas amorosas. O filme trata de questões sociais como a cultura dos videogames, anorexia, infidelidade, busca da fama e a proliferação de material ilícito na Internet. Na medida em que cada personagem e cada relacionamento é testado, podemos ver a variedade de caminhos que as pessoas escolhem – alguns trágicos, outros cheios de esperança – e fica claro que ninguém está imune a esta enorme mudança social que vem através de nossos telefones, nossos tablets e nossos computadores.
TRAILER
O OLHAR DA PSICOLOGIA
O filme fala das mudanças nas relações a partir do universo virtual. De que forma os avanços tecnológicos que trouxe smartfones, tablets, netbooks, smarttvs estão colaborando ou prejudicando as relações entre as pessoas? É disso que trata o enredo. As novas formas de contatar ou evitar os contatos nossos de cada dia. Afetos virtuais, aproximações e afastamentos, pornografia virtual, perda de tempo, privacidade, anorexia, infidelidade, fama, exibicionismo, crimes virtuais, jogos virtuais e tantas possibilidades são discutidas, pontuando a influência da tecnologia na transformação das formas do ser humano se relacionar. Longe de propor respostas, o filme apresenta diferentes perspectivas nas relações mediadas pela internet, muitas vezes tornando o contato real e nutritivo distante daqueles que priorizam as relações virtuais. Certamente, trata-se de um pequeno alerta, não apontando muitos benefícios que o bom uso da internet pode trazer.

O porco espinho

 
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ASSUNTO
Relações familiares, afetivas e sociais, filosofia, pré-adolescência.

SINOPSE
Paloma é uma menina séria e inteligente de 11 anos, decidida a se matar em seu décimo-segundo aniversário. Fascinada por arte e filosofia, a menina passa o dia filmando seu cotidiano, a fim de fazer um documentário. À medida que a data de seu aniversário se aproxima, ela conhece pessoas que a fazem questionar sua visão pessimista do mundo.


TRAILER (em espanhol)
O OLHAR DA PSICOLOGIA
O filme foi baseado no livro “L’Élégance du Hérissson”, a elegância do porco espinho. Arthur Schopenhauer expôs a parábola do porco-espinho, na sua obra Parerga e Paralipomena, como uma metáfora acerca dos desafios subjacentes às relações de intimidades dos seres humanos. Segundo o filósofo, para enfrentar um Inverno rigoroso um grupo de porcos-espinhos precisaram de se juntar para que pudessem aquecer-se mutuamente, de forma a enfrentarem o frio que os atingia. No entanto, terminada a aproximação, os porcos-espinhos começaram a afastar-se, pois os espinhos que cobrem os seus corpos (servem de defesa contra os predadores) tornaram essa mesma proximidade demasiado dolorosa de suportar. Mas como é que eles iriam encontrar a distância adequada de forma a se aquecerem sem se magoarem? O dilema do porco-espinho é um dilema humano. No filme, a pequena filósofa decide registrar aproximações a afastamentos existentes no universo a sua volta, antes de partir. A menina é parte de uma família disfuncional, onde o pai é um político ausente e a mãe, que toma ansiolíticos diariamente, cuida mais de suas plantas do que das filhas.  Sim, ao considerar o vazio de sua existência, particularmente no que se refere a vida adulta que conhece, ela decide marcar a data de se retirar do mundo, que para ela não tinha sentido. Eis que surgem personagens que podem transformar sua visão de mundo.

Boyhood

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Relações familiares, afetivas e sociais, desenvolvimento, ciclos familiares, bullying, alcoolismo, violência doméstica.
SINOPSE
As alegrias e as armadilhas de crescer são vistos através dos olhos de uma criança chamada Mason (Ellar Coltrane), seus pais (Patricia Arquette, Ethan Hawke) e sua irmã (Lorelei Linklater). Vinhetas, filmadas com o mesmo elenco ao longo de 12 anos, capturar as refeições em família, viagens por estrada, festas de aniversário , Formaturas e outros marcos importantes. O filme conta a história de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette) que tenta criar seu filho Mason (Ellar Coltrane). A narrativa percorre a vida do menino durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua relação com os pais conforme ele vai amadurecendo.
TRAILER
As mudanças de Mason
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
Boyhood poderia chamar A VIDA COMO ELA É, pois a trama acompanha o desenvolvimento de Mason, da infância à juventude, retratando mudanças cíclicas que ocorrem na família durante o período. Como tantos outros, Mason é filho de pais divorciados, ele enfrenta as mudanças do entorno e as que ocorrem com ele próprio. Assim, ser e ambiente se influenciam mutuamente, e, transformam-se ao longo desse período, simples assim, exatamente como a vida é. Não é difícil para o espectador se identificar com alguma passagem do filme. A trama inicia quando o menino tem 6 anos e os pais já estão separados. Fruto de pais imaturos, ele e a irmã vivem as turras, sem que o amor deixe de existir. A mãe, por sua vez, tenta administrar seu lugar de mãe e de mulher, pois sem o suporte do ex-marido, torna-se a única responsável pela administração do lar. Difícil dar conta de cuidar dos filhos e buscar relacionamentos saudáveis.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Um certo olhar

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Autismo, aceitação, diferenças, amizade, relações afetivas, familiares e sociais.
SINOPSE
Alex (Alan Rickman) é um taciturno inglês que está no Canadá para se encontrar com a mãe de seu falecido filho. No caminho ele dá carona para Vivienne (Emily Hampshire), jovem que vai visitar a mãe. Na viagem um caminhão atinge o carro, matando Vivienne. Alex sai então à procura da mãe da jovem. Ao encontrá-la, descobre que ela (Sigourney Weaver) é autista. Linda não tem qualquer reação ao saber da tragédia, mas Alex decide ficar com ela até o funeral. É quando ele conhece Maggie (Carrie-Anne Moss), a vizinha sexy com quem se envolve.
Linda
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
Mais do que falar sobre autismo, o filme oportuniza uma bela reflexão sobre nossas neuroses de cada dia. Explico melhor: Linda, uma autista de altas habilidades, a todo tempo sinaliza a obviedade da vida dos que são considerados “normais”. Um bom exemplo acontece quando ela repete, para seu hóspede “normal”, a frase: “perfecto mondo”. Ou seja, que normalidade é essa, na qual “fantasiamos” controle social de todos os nossos atos, ao considerar perfeito determinado padrão. Quer dizer, para ser socialmente aceito, o homem “normal” precisa se comportar de forma pouco autêntica?!?!? Quanto mais “polido”, menos autêntico e, ainda chamamos de patológico aquele que não consegue mentir, que é objetivo, autêntico e real. Sim, nossa neurose é politicamente correta! A vida é assim. Pois bem, nossa querida Linda nos mostra muito sobre o valor das pequenas coisas. Dentro de sua forma de funcionamento peculiar, ela revela o quanto perdemos contato com as pequenas coisas que poderiam fazer mais “sentido”. Tal qual sua filha, que era apaixonada pela singularidade da mãe, Alex descobre o encanto daquele ser, que além de aceitá-lo, pode ensinar muito sobre o quanto vida pode ser simples. Aliás, a filha já tinha sinalizado sobre o isolamento dele, sobre a evidência de sua solidão, um comportamento humani que a seduzia. Para a menina, as pessoas solitárias precisavam resgatar o contato com o mundo, assim, ela se candidatava ao lugar de facilitador desse processo. Escolher se aproximar de pessoas assim era para ela uma aventura. Ela dá o pontapé inicial para o melhor aprendizado que Alex pode ter, ou seja, aprender sobre sua capacidade de escolha. Nossa capacidade de escolha inclui o que fazer com o que fizeram de nós, podemos sair do lugar de “vítima das circunstâncias” e escolher fazer algo com a situação.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Adam

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Sindrome de Asperguer, Autismo, relação terapeutica, relações afetivas, familiares e sociais.
SINOPSE
O jovem engenheiro eletrônico Adam acaba de perder o pai. Com dificuldades de se socializar, vive isolado em seu excessivamente organizado apartamento em Nova York. Sua rotina se transforma quando a atraente Beth se muda para o andar de cima. Inicialmente reticente com o comportamento estranho do vizinho, ela aos poucos passa a conhecê-lo melhor e a entender as razões por trás de suas dificuldades de comunicação. Percebendo o interesse de Adam e a profunda conexão que se formou entre eles, Beth resolve dar uma chance ao relacionamento.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
Adam é portador da Síndrome de Asperger, transtorno de espectro autista. Sua forma de funcionamento traz algumas peculiaridades, principalmente no que se refere à percepção. Costumamos considerar “Normal” ter a capacidade de selecionar o estímulo ambiental que nos interessa. Por exemplo, no universo dos neuróticos, escolhemos o que ouvir, o que ver, o que “perceber”. Muitas vezes, o trabalho da terapia é favorecer a ampliação da percepção, pois nossa tendência de selecionar o que é possível pode provocar comunicação ineficiente, causando sofrimento. Por outro lado, para compreendermos, de fato, o que estamos ouvindo, vendo, percebendo, é preciso focar no alvo de nosso interesse. Em Gestalt-terapia, chamamos de “figura” o estímulo em foco, e de “fundo” todo o restante. Assim, estando aberto ao fenômeno que se revela, ele é selecionado, “destacado”, em detrimento dos estímulos restantes, que vão para o fundo. O processo saudável consiste em trocas sucessivas de figura e fundo, de acordo com o interesse da pessoa, fluindo naturalmente e constantemente. A cada formação de sentido ou “fechamento de uma gestalt”, outro estímulo se torna figura e o anterior se torna fundo. Pessoas portadoras da Síndrome de Asperger não conseguem selecionar estímulos, o que transforma seu universo em alvo de múltiplos estímulos simultâneos. A sensibilidade com a informação sensorial, como luz, som, textura e gosto podem ser percebidas como invasivas, transformando o convívio social em uma ameaça insuportável. O isolamento social é consequência desse e de outros sintomas. Os “aspies” – como se autodenominam os portadores da síndrome – não apresentam nenhum traço físico aparente da doença e possuem inteligência normal, muitas vezes acima da média. Suas dificuldades de comunicação são confundidas muitas vezes como mera timidez, enquanto, na verdade, enfrentam problemas de primeira ordem relacionados à sociabilidade, compreensão da linguagem e interesse exclusivos por determinados assuntos, o que abala as estruturas convencionais na formação de vínculos com a sociedade. Dificilmente eles olham para seu interlocutor, sempre evitando o contato direto. Do mesmo modo, quando olham, eles não conseguem interpretar suas expressões faciais. Isso quer dizer que esteja você sorrindo ou com cara de zangado, a reação é a mesma e neutra, o que acusa a falta de entendimento das emoções. Essa característica provavelmente é uma das que mais lhes gera angústia, pois não conseguem compartilhar e entender os sentimentos do próximo. Uma característica peculiar da síndrome faz que seus portadores se interessem quase que exclusivamente por um único assunto, como pode ser visto com Adam. Cada caso é um caso, nem todos os sintomas são iguais ou têm a mesma intensidade nos portadores. O filme nos mostra como é para Adam, que depois de perder o pai, encontra-se perdido. Beth representa um vínculo nutritivo, que o auxilia a ampliar suas habilidades sociais, a partir de sua disponibilidade e carinho. O desdobrar da história, irá retratar alguns sintomas peculiares e novas revelações dentro  das possibilidades. Trata-se de um filme simpático, que não perde a chance de ser didático, pois a consciência da própria síndrome faz com que Adam explique parte do que ocorre em seu universo. A inaptidão para perceber a linguagem não verbal é amenizada pelo aprendizado lento, mas possível. O longa é super recomendado para melhor compreensão de outras formas de funcionamento no mundo, nem melhor nem pior, apenas diferente. Confira!




terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O lenhador

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Pedofilia, relações afetivas, sociais, familiares e relação terapêutica.
SINOPSE
Após 12 anos na prisão, Walter (Kevin Bacon) se muda para uma pequena cidade. Ele vai viver num apartamento em frente a uma escola de ensino básico, cheia de crianças. Walter arruma emprego em uma madeireira e se mantém o mais reservado possível, mas isto não o impede de se envolver com Vicki (Kyra Sedgwick), uma extrovertida colega de trabalho. Ele, porém, não pode escapar do seu passado e quando os colegas de trabalho descobrem seu crime, o clima amigável desaparece.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
Confesso minha resistência em assistir ao filme. Pedofilia é um tema difícil, que provoca sentimentos conflitantes, dificultando a necessária neutralidade no processo terapêutico. Recordo que na época de seu lançamento, o longa foi recomendado por uma professora querida, que sinalizava a respeito da consciência que o terapeuta deve ter sobre os próprios limites. Existem situações nas quais o profissional pode ficar impossibilitado de manter a postura de imparcialidade, do não julgamento, a pedofilia pode ser uma delas. Como atender com imparcialidade um cliente, que em um momento de descontrole, é capaz de molestar uma criança indefesa? Como lidar com tal situação de forma imparcial? Certamente, o filme nos dá pistas sobre o outro lado da situação. Não há como não repensar nosso impulso de considerar o pedófilo como monstro, após assistir ao drama. Nós somos convidados a acompanhar os dias de Walter, após 12 anos de detenção. Aos poucos, somos apresentados ao seu drama, e seus conflitos cotidianos diante da necessidade de se reinserir na sociedade e seus conflitos internos, frente à possibilidade de se descontrolar novamente.

Encontros ao acaso

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Relações afetivas, familiares e sociais; processo autodestrutivo, dificuldade de aceitar afetos e mudanças.
SINOPSE
Lucy Fowler (Ashley Judd) é uma mulher trabalhadora e auto-destrutiva, que realiza frequentes aventuras de uma só noite, sempre regada a muita bebida. Ao tentar mais uma vez se reaproximar do pai, Lowell (Scott Wilson), ela conhece Cal Percell (Jeffrey Donovan), que se mudou recentemente. Cal consegue enxergar em Lucy algo que ela própria não deseja reconhecer, o que faz com que se afaste dele. Desta forma Lucy precisa lidar sozinha com sua conturbada família e sua dificuldade em amadurecer e manter um relacionamento amoroso.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
O filme fala, principalmente, sobre a dificuldade de relações afetivas da protagonista, que “repete” o comportamento do pai, que se revela na trama a própria dificuldade de manter relações afetivas. Lucy, além de manter relações com desconhecidos em momentos de embriaguez, não se lembrando no dia seguinte sobre os detalhes da relação, faz questão de se manter emocionalmente distante de tudo. Atentem para a relação com o cachorro abandonado, e, sua atitude distante diante da clara afeição ao animal. Como qualquer de nós, ela tem uma história, um contexto que ajuda a compreender seu comportamento reativo diante das possibilidades afetivas. A trama me fez recordar da importância do GENOGRAMA no processo terapêutico. Para quem não conhece a ferramenta, trata-se de um recurso potente de suporte ao processo terapêutico. Com ele, somos capazes de identificar, junto ao cliente, as repetições transgeracionais, as questões familiares, oferecendo a oportunidade de capacitar o cliente para realização de novas escolhas. Ao reconhecer “repetições”, situações inacabadas, ou questões que pertencem ao histórico da pessoa, o cliente encontra a oportunidade de aceitar/perceber/ter consciência seu movimento atual. Diante disso, algo semelhante ao que Jung chamou de “processo de individuação” pode acontecer de forma mais saududável. Em Gestalt-terapia, o mesmo processo pode ser reconhecido como percepção da própria fronteira, que deve ser flexível, nem totalmente aberta nem fechada. Assim, a pessoa pode escolher quando e onde abrir seu mundo ao mundo do outro, fazendo contatos nutritivos com o ambiente. A repetição de comportamentos engessa as fronteiras, que bloqueiam as novas trocas. O processo de Lucy, aos poucos vai oferecendo a oportunidade dela perceber suas ações “reativas”, repetidas, inacabadas. E, assim, durante a trama, vamos acompanhando seu movimento de busca de fechamento para situações inacabadas, ou, o reconhecimento de seu funcionamento “repetido”.  Nesse sentido, Cal é a chave terapêutica de Lucy, pois “representa” o papel do terapeuta, ao sinalizar o óbvio. Assim também faz sua colega de quarto, que questiona suas atitudes. Acompanhamos a busca de sentidos na relação familiar, que aos poucos lhe dão a clareza do próprio funcionamento, e, com isso a possibilidade de novas escolhas. Não espere, então, que o desfecho feliz esteja de acordo com os romances clássicos. Ser feliz com o príncipe encantado? Que nada! Há frustração, há dor, mas não é possivel desenvolvimento real, sem que passemos pela dor.  Na fita, vemos a busca da própria integração, em detrimento da busca do outro que a “complete”. Para que um sistema inteiro seja possível, sem dependência, mas apenas uma relação de contato saudável, ambos precisam estar inteiros, integrados em sua individualidade, para somente depois realizar trocas nutritivas. O final está aberto, mas feliz, pois fica claro o quanto Lucy pode realizar novas e criativas escolhas, o restante pode ser imaginado. Aí está um final real e feliz, vale a pena conferir!




sábado, 25 de outubro de 2014

Mary & Martha: Unidas Pela Esperança


ASSUNTO
Bullying, solidariedade, luto, perdas, relações, familiares, 
afetivas e sociais.

SINOPSE
Mary vai morar com o filho na África, mas ele acaba
morto, vítima de malária. Logo, ela conhece Martha, que também perdeu o filho  para a doença. Juntas, elas vão tentar prevenir outras famílias deste mal e impedir que outras mães sofram da mesma forma.






TRAILER



O OLHAR DA PSICOLOGIA
Vamos começar pelo óbvio, falando de perda, de luto. Quando se trata de um filho, a coisa fica mais complicada ainda. Como elaborar o luto da perda de um filho? Preparem seus lenços, a trama apresenta a dor da perda de um filho em dose dupla. Não é fácil acompanhar, muito menos viver. No filme, encontramos duas personagens na mesma situação, ambas perdem seus filhos. Mas como toda situação, cada qual tem sua particularidade, seu contexto. Mary decidiu proteger seu filho de uma situação de bullying na escola. Atentemos as questões pessoais de Mary. Depois de ser informada sobre o que acontecia com o filho, ela percebe o quanto está distante dele e demonstra sentir-se culpada por isso. Ao longo da trama, percebemos que a mesma sofreu com a ausência do pai, que priorizava o trabalho antes da família. Com a percepção atravessada por sua história, ela escolhe “corrigir” seu comportamento, indo com o filho para África por seis meses. Seu planejamento inclui estudos, proteção, resgate da própria história e aproximação do universo do filho. Durante seus primeiros momentos junto ao filho, há uma crítica sutil ao mundo virtual, que tem ocupado o tempo familiar, antes preenchido com as trocas familiares. Em outro lugar, somos apresentados à família de Martha, senhora dedicada, que representa o papel claro da mãe protetora. Seu filho querido, superprotegido e amado, decide se aventurar também na África, se engajando num projeto de voluntariado. A África, lugar da perda, é também lugar do encontro com a humanidade de cada um. A morte por malária já faz parte do cotidiano dos africanos, pois em condições desumanas, sem assistência suficiente ou possibilidades de prevenção, a doença se alastra. Interessante, se compararmos a situação atual do EBOLA, receios a parte, temos a ilusão de que acontecendo lá, tão longe, na África, não terá chance de nos atingir. Somos evoluídos, temos melhores condições, etc. Como se não fizéssemos parte do mesmo planeta, da mesma condição humana, da mesma rede. Assim também, me parece, pensou o filho de Martha que se sentindo inatingível distribui as pílulas entre as crianças, e, não tomou. Martha e Mary perderam seus filhos no mesmo lugar, elas tinham em comum a dor dessa perda quando se conheceram. Ambas precisavam elaborar seu luto, momento difícil que as conduziu para o local da tragédia. Talvez, apenas talvez, ficasse mais fácil de compreender um acontecimento tão fora da ordem natural das coisas. Embora aparente mais uma resenha do que um artigo, tal introdução é importante para a compreensão do que discutiremos a seguir.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Helen Keller e o Milagre de Anne Sullivan

 
clip_image001ASSUNTO
Deficiência auditiva e visual, limite, relações familiares, afetivas e aprendizagem.
SINOPSE
A incansável tarefa de Anne Sullivan, uma professora, ao tentar fazer com que Helen Keller, uma garota cega, surda e muda, se adapte e entenda (pelo menos em parte) as coisas que a cercam. Para isto entra em confronto com os pais da menina, que sempre sentiram pena da filha e a mimaram, sem nunca terem lhe ensinado algo nem lhe tratado como qualquer criança.
O filme The Miracle Worker (sem distribuição no Brasil, produzido para TV em 2000 nos EUA, dirigido por Nadia Tass) é um "remake" de dois filmes sobre o mesmo tema: "The Miracle Worker", produzido em 1962, dirigido por Arthur Penn, distribuído no Brasil com o título O Milagre de Anne Sullivan; e "The Miracle Worker", também produzido para TV em 1979, dirigido por Paul Aaron, que em 1984 teve ainda uma sequencia com o título "Helen Keller, The Miracle Continues".
TRAILER
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
O filme retrata uu período da história de vida de uma menina cega e surda. O nome dela era é Helen Keller, de sete anos, filha de proprietários de terras. Ela não sabia o que era mundo e não sabia como interpretá-lo, e apesar disso tudo, ela precisava muito se expressar. A trama retrata uma parte da história da menina, depois dela já ter perdido a visão e a audição. A família, por sua vez, após tê-la quase perdido, faz todas as vontades que pensam ser dela. Hellen, por sua vez, se parecia com um animal agressivo, ela chutava, mordia, cuspia, sem conseguir se comunicar. Foi o desespero, o limite diante dos espetáculos grotesco da criança, que favoreceu a descoberta de Anne Sullivan, a professora de métodos pouco convencionais, que surge para disciplinar, domesticar e educar a menina. Ela foi cega (fez nove cirurgias nos olhos) e usa óculos escuros para proteger-se do sol. Ao se deparar com Helen, entende que ali está o maior desafio da sua vida: o desafio de explicar a uma menina como viver no mundo e como entende-lo. Para isto entra em confronto com os pais da menina, que sempre sentiram pena da filha e a mimaram.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Numb

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Relações familiares, sociais e afetivas. Erros e acertos nas relações terapêuticas, transtorno de despersonalização.
SINOPSE
Um roteirista sofre de um  transtorno, que o faz perder contato com sua personalidade e ter sensações de irrealidade e estranheza. Suas tentativas de tratamento e cura são retratadas na fita.  Quando se apaixona por uma mulher, o esforço dele aumenta, passando por todo tipo de terapia existente para conseguir conquistá-la.
TRAILER
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
Numb é um filme de 2007, que inicia com Hudson se percebendo de forma estranha. Havia algo errado em sua percepção, mas ainda assim, era possível manter as aparências. Ninguém percebia o que estava acontecendo com ele até o dia ao fumar maconha ele perde o controle. Diante do surto, ele procura ajuda. O médico descarta as doenças físicas e o encaminha para o psiquiatra. De acordo com a psiquiatria, o filme retrata o transtorno de despersonalização e desrealização, que de forma resumida relaciona-se a um estranhamento em relação ao próprio corpo e ao mundo externo e que ocorre puramente como patologia, ou como fenômenos em diversos transtornos psiquiátricos como transtornos dissociativo e no famoso transtorno do pânico. Hudson (Matthew Perry) define assim sua desordem metal: O transtorno de despersonalização é o desligamento de sensações exteriores. Consiste na persistência ou recorrente experiência de se sentir desligado, como se alguém fosse um observador de seus próprios processos mentais ou do corpo. Além de oferecer um material informativo sobre o transtorno, o filme apresenta diferentes intervenções, psicológicas e psiquiátricas, que revelam algumas situações terapêuticas pouco recomendadas. O material a seguir contém Spoiler (revelações do enredo), portanto é recomendado ser lido após o filme ter sido assistido.

domingo, 21 de setembro de 2014

Hoje eu quero voltar sozinho

clip_image001ASSUNTO
Adolescência, Deficiência visual, sexualidade, homossexualidade, autoconhecimento, amor, relações afetivas e familiares.
SINOPSE
Leonardo (Guilherme Lobo), um adolescente cego, tenta lidar com a mãe superprotetora ao mesmo tempo em que busca sua independência. Quando Gabriel (Fabio Audi) chega na cidade, novos sentimentos começam a surgir em Leonardo, fazendo com que ele descubra mais sobre si mesmo e sua sexualidade.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
O filme ultrapassa os temas homossexualidade e deficiência visual, ao tratar de um assunto comum ao ser humano: o primeiro amor. Entretanto, a adolescência já é um momento difícil, no qual os conflitos estão presentes nas pequenas coisas. Assim, como qualquer adolescente, que sente a necessidade de se autoafirmar, Leonardo encontra obstáculos dentro e fora de casa. Os afetos e desafetos são retratados com suavidade, clareza e naturalidade. Poucos adolescentes não sentem, em algum momento, o peso da diferença (ou diferenciação) em confronto com a necessidade de “pares”, durante o processo de construção da própria identidade. Sua mãe é superprotetora, seu desejo é evitar o sofrimento do filho. Quantas mães fazem o mesmo, muitas vezes prejudicando a autonomia do filho? Muitas vezes, por diversas razões, os pais limitam ou tentam limitar o desenvolvimento dos filhos, sem que percebam onde, de fato, é o limite. Não é preciso ter uma deficiência física. Faz parte do processo, o filho descobrir onde é seu limite no conflito, na tensão. Não há crescimento sem confronto. A descoberta da própria sexualidade de Leo acontece naturalmente, junto a outras situações previstas neste rito de passagem. O mais interessante, é a capacidade que a trama tem de tratar de tabus como a deficiência visual e o homossexualismo sem ceder lugar ao preconceito. Até o bullying é mostrado sem alarde, o foco continua a ser a descoberta do amor, da amizade, das emoções que emergem nas relações. De forma simples, gentil, delicada e terna, a trama encanta aos espectadores de todas as idades. A suavidade com que trata dos temas propostos é encantadora, sem polemizar nenhum dos assuntos, as coisas apenas são o que são, simples assim! Não se trata de um drama, nenhuma polêmica, apenas a vida como ela é, sendo vista através de um olhar terno. Talvez, uma das peculiaridades mais charmosas do filme, esteja na descoberta do amor sem a visão, há apenas o sentir. É inegável a intensidade do contato com as próprias sensações. É claro que Gabriel também faz contato com suas sensações de forma intensa. E a cena que evidencia o inicio para ele acontece através da visão. Ele se contém ao ver seu amigo com outros olhos, ele se afasta e talvez fique aliviado por não ser visto. Doce, confuso, inseguro, ambíguo. No final das contas, é apenas amor, o amor é o que importa, toda e qualquer forma de amor.







quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Pão e Tulipas

clip_image002 ASSUNTO
Relações afetivas, familiares e sociais, auto-descoberta
SINOPSE
2000 - A dona de casa Rosalba (Licia Maglietta) está viajando em uma excursão de ônibus com sua família. Ao parar em um restaurante à beira da estrada, ela é esquecida pelo marido e pelos filhos. Uma situação propícia para que possa fazer o que sempre quis: conhecer Veneza. Pede carona, deixando apenas um evasivo recado na secretária eletrônica do marido: "Férias". Mas incidentes transformam a rápida escapada em algo mais duradouro. Enquanto isso, o marido contrata um encanador fanático por histórias de detetive para ir atrás da mulher. Mas Rosalba já organizou sua nova vida: arrumou um emprego, divide um apartamento com um garçom finlandês, ganhou a amizade da vizinha, voltou a tocar acordeão. Quando o encanador-detetive a encontra, ele também percebe que a vida pode ser muito mais divertida do que parece.
 
O OLHAR DA PSICOLOGIA
Também recomendado por Cláudia Távora, em seu artigo “Três ensaios sobre o self: Intencionalidade, crise e mudança”, que foi publicado no livro “Encontros”, IGSP, o filme revela muito sobre nossas relações com e no mundo. Promovendo diversas reflexões, a trama nos convida a pensar sobre o nosso funcionamento no mundo, nossas possíveis acomodações, nossos sonhos esquecidos, nossa necessidade ambígua de “voar em segurança”. Estamos falando daquela necessidade de mudança que nos causa medo, ela é necessária e também assustadora. Auto-descoberta é o ponto forte do filme. Gosto do pensamento que des-cobre, no sentido de revelar, tirar aquilo que cobre. Pois é assim com Rosalba, que em momento de crise, aproveita a oportunidade para se re-conhecer, se re-conectar a si mesma, se re-descobrir. E, como esse é um processo que se faz nos contatos, foi preciso também existir novos e nutritivos contatos capazes de promover seu crescimento. Explico, Rosalba é esquecida por sua família, num momento bastante simbólico. Para alguém que vive em função do seu contexto (casamento/ família), é exatamente sua preocupação - em recuperar a aliança que havia caído no vaso sanitário - que fez com que se perdesse o ônibus. Entretanto, nem a organização da excursão nem sua família percebem sua falta. Como seria sentir que sua ausência não foi notada? Como é perceber sua “não existência” para o outro a quem dedicamos nossa vida? Para muitos, poderia ser um momento de tristeza sem fim, perceber que a própria família não sente sua falta. Ainda mais, quando a pessoa se anula em favor dessa família. Fora do contexto familiar, onde sua presença se faz de outra forma, ela deixa de ser notada, percebida, considerada. Momento difícil para qualquer pessoa em qualquer momento.

domingo, 31 de agosto de 2014

Herói por acidente

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Self, personalidade, gestalt-terapia, ética jornalística, relações sociais, afetivas, e familiares e produção midiática.
SINOPSE
1992 -Dustin Hoffman, Andy Garcia e Geena Davis estrelam nesta cativante comédia de Stephen Frears. Davis é a ambiciosa repórter Gale Gayley, que literalmente aterrissa na história de sua vida, quando é uma das passageiras do avião que cai em uma ponte de Chicago. No meio da fumaça e da escuridão, ela é salva por um corajoso e mal educado herói, que rapidamente desaparece na noite deixando apenas seu sapato para trás. Quando a emissora de TV de Gale oferece um milhão de dólares para o herói misterioso, um educado veterano do Vietnã (Garcia) aparece para reclamar o prêmio - e dividi-lo com os sem-teto da cidade. Mas esta excêntrica história de Cinderela é complicada pelo fato de que o verdadeiro herói é um pequeno picareta (Hoffman), no qual ninguém acredita. Os dois homens têm algo de heróico, bem como algo a esconder, e cabe a Gale descobrir o verdadeiro significado da coragem.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
O filme foi indicado por Claudia Távora no livro ‘Encontros’. No artigo “Três ensaios sobre o self: Intencionalidade, crise e mudança”, ela apresenta três filmes e propõe uma ‘jornada cinematográfica clínica’. Sugerindo que os filmes sejam assistidos após a leitura, ela faz considerações sobre os conceitos gestálticos e propõe novos olhares. Para os que se interessam pela Gestalt-terapia, vale a pena procurar o livro, que está disponível no IGSP. Indo além do self, “personalidade”, etc, o filme trás outros aspectos a serem considerados. Uma das sacadas mais legais do filme é a apresentar como é fácil restringirmos a “personalidade” algo estagnado, sem lembrarmos que vida é movimento... Para os jornalistas, será importante focar na discussão ética que se revela na trama. A jornalista Gale Gayley prioriza a profissão, trazendo a discussão a respeito da ética, a falta dela e suas consequências. Ainda considerando esse aspecto, a trama faz uma crítica à mídia e a crença geral em qualquer coisa que é divulgada, sem que seja considerada a realidade dos fatos. O que está em foco é a melhor imagem, o que todos querem ver, crer, aceitar... Notícia também vira produto de consumo! Bernie La Plante e John Bubber nos convidam a pensar em alguns aspectos interessantes sobre aparências e outros assuntos. A primeira frase que me veio a mente foi “A ocasião faz o ladrão”. Embora não concorde que se dê dessa forma, pois somos constituídos pelo encontro, a força do meio é realmente impressionante. É no encontro com o desconhecido que nos revelamos, não só ao mundo, mas também para nós mesmos. Fora essa discussão, que rende muitas reflexões, os dois personagens retratam uma realidade difícil de ser aceita: ninguém é de todo mau, muito menos, bom. O potencial humano revela ambiguidades, não devemos “engessar” nem uma personalidade, nem um acontecimento, pois tudo acontece sem que tenhamos planejamento suficiente para dar conta do devir. O AGORA revela encontro de diferentes “forças”, ou “campo de forças” que se desdobrarão no inesperado. Vale a pena conferir!







quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A Culpa é das Estrelas

ASSUNTO
Doença terminal, luto, perseverança, tempo, relações afetivas, sociais e familiares, autoconhecimento, superação, prioridades.
SINOPSE
Diagnosticada com câncer, a adolescente Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley) se mantém viva graças a uma droga experimental. Após passar anos lutando com a doença, ela é forçada pelos pais a participar de um grupo de apoio cristão. Lá, conhece Augustus Waters (Ansel Elgort), um rapaz que também sofre com câncer. Os dois possuem visões muito diferentes de suas doenças: Hazel preocupa-se apenas com a dor que poderá causar aos outros, já Augustus sonha em deixar a sua própria marca no mundo. Apesar das diferenças, eles se apaixonam. Juntos, atravessam os principais conflitos da adolescência e do primeiro amor, enquanto lutam para se manter otimistas e fortes um para o outro.

TRAILER

O OLHAR DA PSICOLOGIA
Atendendo ao pedido de uma colega do grupo, Christiana Chagas, finalmente assisti A CULPA É DAS ESTRElAS. Por sorte minha não o fiz no cinema. Explico: Sou chorona por natureza, e, se o fizesse rodeada de pessoas, poderia ser constrangedor, talvez não fosse possível soltar toda emoção. Em casa, sozinha, eu pude dar vazão às emoções, chorei muito. Não, o filme não é um daqueles dramas melodramáticos que prioriza manipular o espectador colocando “o dedo na ferida”, explorando imagens da doença ou apelando para a compaixão do público. Apesar de conter diálogos ricos, recheados de “tiradas geniais”, o foco maior está no que não é dito. Os atores cumprem o trabalho, cada olhar ou gesto transmitem muito, fica impossível não ser tocado em algum momento. Bom, não é bem assim. Há pessoas que são como Gus, escondem suas emoções ou inseguranças em frases irônicas e bem humoradas, ou em sorrisos sarcásticos ou deboches. São apenas formas singulares de expressão. Fato é que, lá no fundo, existe um lugar que é tocado, mesmo que a pessoa não consiga expressar como o ‘outro’ é capaz de fazer. Aliás, uma coisa engraçada é essa de chorar. Embora seja a expressão autêntica de uma emoção, na maior parte das vezes, surge alguém que diz a célebre frase: “Não chore.” Por que não chorar? Tenho me perguntado o motivo de sentirmos vergonha disto, sendo o choro coerente com o momento ou não... Voltando ao filme: O silêncio das cenas toca o espectador no conjunto de suas próprias experiências, não pela semelhança com os fatos retratados, mas pelas sensações percebidas como “conhecidas”. Obviamente, cada um será tocado em sua particularidade, portanto, não há como explorar todas as possibilidades. Sendo o filme baseado em um livro escrito para adolescentes, é esperado que a trama pudesse atingir ao mesmo público. No entanto, os temas abordados podem superar as expectativas e afetar ao público em geral. Isto ocorre, principalmente, por focarem em assuntos que permanecem como tabus para a humanidade: câncer, morte, doença, tempo, a finitude.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A Delicadeza do Amor

ASSUNTO
Relações afetivas, familiares e sociais, luto, superação, autoestima, amor.
SINOPSE
Nathalie (Audrey Tautou) é jovem, bonita, tem um casamento
perfeito e leva uma vida tranquila, com tudo no lugar. Contudo, quando seu marido vem a falecer após uma acidente, seu mundo vira de cabeça para baixo. Para superar os momentos tristes, ela decide focar no trabalho e deixa de lado seus sentimentos. Até o dia em que ela, sem mais nem menos, tasca um beijo em Markus (François Damiens), seu colega de trabalho e os dois acabam embarcando numa jornada emocional não programada, revelando uma série de questões até então despercebida por ambos, o que os leva a fugir para redescobrir o prazer de viver
e entender melhor esse amor recém-descoberto.


TRAILER


O OLHAR DA PSICOLOGIA
Lançado no Brasil em 2012, o filme tem uma capacidade expressiva tão grandiosa, que dispensa minha forma habitual de escrever. A trama  supera qualquer expectativa, principalmente pelo não dito. A linguagem não verbal é alternada com as poucas palavras que vão costurando a trama com sutileza. É difícil encontrar um filme que tenha a capacidade de provocar tanto com tão pouco. A ausência de glamour encanta. Cada cena traduz um episódio crível, que despido de alegorias, irá abraçar cada instante como simples fenômeno em ato. Começando pelo final feliz de “contos de fadas”, a tal “receita da felicidade” vai sendo desconstruída. Assim, como a vida que só pode ser construída entre altos e baixos, o filme transita entre perdas e ganhos, frustrações e conquistas, alegrias e tristezas. O gracioso “A delicadeza do amor” acompanha os caminhos da vida de “pessoas reais”, com seus defeitos e qualidades, tudo é elaborado com bom humor e sensibilidade. O luto, a luta, a ansiedade, a negação, a rejeição, o medo, a dor, a paixão, a saudade, o preconceito, a mudança de ciclo, o renascimento, a superação são temas explorados na trama. Partindo de uma história de amor interrompida, o filme acompanha a elaboração do luto da protagonista, sem com isso pesar no tom dramático. Após o tempo necessário para ela, o verdadeiro encontro, aquele que só é possível na diferença, simplesmente acontece. Desde a perda do marido “perfeito”, ela se entregou ao trabalho, transformando-o numa obsessão. Vivendo no modo automático, ela evita contatos afetivos. No entanto, em um dia qualquer, algo “transborda” em Stéphane, o que provoca um ato impensado: o impulso ncontrolável de beijar o estranho Markuz, um simples funcionário de sua equipe de trabalho. Ele, o típico perdedor de poucos amigos e baixa autoestima, é surpreendido pelo acontecido, que irá transformar sua forma de ver o mundo. Partindo do inesperado, o verdadeiro encontro se dá. Há entre a beleza, que não quer ser vista, e a feiura, habituada ao anonimato, o desenvolvimento sensível de possibilidades, que podem ser vivenciadas a cada instante, na forma que se apresentar aos sentidos. De “Penso, logo existo” ao “Existo, onde não penso”, a trama encanta por sua meiguice natural, apresentando em poucas palavras, como a vida pode ser. O filme é recomendado para todos, sem exceção! Não existem palavras suficientemente capazes de descrevê-lo, pois a trama estimula mais os “sentidos” do que a razão, merecendo, portanto, ser percebido e sentido. Deixe-se afetar pelo inesperado, singelo e terno “A delicadeza do amor”!

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Eu, mamãe e os meninos

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Relações familiares, afetivas e sociais, sexualidade, homossexualidade, autodescoberta, identidade, gênero, construção de personagem do ator.
SINOPSE
Concebido, dirigido e protagonizado pelo comediante francês Guillaume Gallienne, o filme autobiográfico tem início num palco de teatro, onde a ideia ganhou espaço pela primeira vez numa peça de sucesso na França. Guillaume tem uma história de vida curiosa: quando era criança, sua mãe autoritária sempre pensou que ele fosse diferente dos irmãos, e decidiu criá-lo como uma garota. Anos depois, já adulto, ele relata a relação complicada que tinha com o pai, os maus-tratos dos colegas de escola e seus primeiros amores. Depois de várias confusões e histórias engraçadas, Guillaume decide fazer uma peça de teatro para contar como consegui finalmente fazer as pazes com a sua sexualidade.
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O OLHAR DA PSICOLOGIA
Ah, como “EU, MAMÃE E OS MENINOS” é divertido, sem deixar de provocar diversas reflexões sobre diferentes perspectivas do desenvolvimento humano e a importância das relações familiares em nossa constituição. Trata-se de uma comédia dramática, que escolhe uma abordagem, que não se esgota no tema “homossexualidade” ou “sexualidade”. O filme fala sobre autoconhecimento, intolerância homofóbica, gênero, definição da identidade, julgamento, e, obviamente, relações familiares. Há diferentes formas de olhar os temas desenvolvidos na trama, de tão rica que é. Por exemplo, os que são atores encontrarão um verdadeiro laboratório de expressão artística, o que é uma deliciosa homenagem ao processo de formação de ator. Já dentro das abordagens psicológicas, é possível encontrar também diferentes olhares, o que pode confirmar o merecimento de seus prêmios. Para a abordagem gestáltica, a visão de homem é a que considera a totalidade organísmica, ou seja, o homem em relação com o meio ambiente (pessoas/mundo). Não há como olhar o ser, sem que seu contexto seja incluído. Sendo assim, o desenvolvimento do ser humano acontece durante os contatos que realiza desde o nascimento. Obviamente, os pais, sendo os primeiros contatos relacionais do ser, fazem parte da construção primária da identidade. O titulo do filme é justificado na frase que a mãe usa ao chamar os filhos: “Os meninos e Guillaume, à mesa”. O que retrata clara diferenciação do olhar da mãe, que o exclui da categoria “meninos”. A mãe se revela dominadora, sem com isso deixar de ser admirada, idolatrada e bastante imitada pelo filho, que aceita de bom grado o lugar destinado a ele pela mãe. A trama sugere que a mãe projeta nele o desejo ser mãe de uma menina.